O ‘directo’ : “incentivo à preguiça” Maio 4, 2008
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” (…) Os serviços de notícias dos três canais ditos ‘generalistas’, sem excepção, são cada vez mais divertimento e espectáculo e cada vez menos informação. Desapareceram os comentários inteligentes e informados. Foram-se os especialistas que podem ajudar a compreender. Acabou o recurso a documentação e arquivo que permita colocar os factos em contexto e percebê-los melhor. A explicação serena e fundamentada foi abolida. (…) O ‘directo’ é o maior incentivo à preguiça que se conhece. Dispensa trabalho e reflexão. Não precisa de inteligência ou estudo. É o que existe de melhor como veículo de emoções, até de histerismo. É finalmente o factor de mutação da notícia em espectáculo. É a autorização para não pensar nem investigar. É a troca deliberada, feita pelos editores e pelos jornalistas, de reflexão, do estudo, da investigação e da edição, todo este trabalho que deveriam ser os pergaminhos do jornalismo, pela aparência do imediato, do espectáculo, da concorrência entre canais e do despacho. É o reino das emoções em directo, o contrário mesmo do que deveria ser o bom jornalismo. O ‘directo’ não é a causa primeira, mas é o instrumento de degradação da televisão. É, sobretudo, a destruição da informação e da inteligência.(…)”António Barreto, A arte da irrelevância, Público, 4.5.2008
“Um país, para se conhecer a si mesmo…” Março 9, 2008
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Fazer de um telejornal a apresentação minuciosa de acidentes, desastres, polícias, ladrões e jogadores de futebol não é, de certeza, a única informação que interessa. Um país, para se conhecer a si mesmo, precisa, em primeiro lugar, de ser informado acerca do que está a nascer, a crescer e a desenvolver, em todos os sectores da vida e da actividade. A melhor pedagogia não é aquela que só sabe mostrar o que está mal, mas a que ajuda a potenciar o que há de melhor nas pessoas, nos grupos, nas instituições. Com inteligência e boa vontade, com os recursos de que os meios de comunicação podem dispor, é possível fazer mais e melhor.Bento Domingues, in Público, 9.3.2008
Ou porque não há remédio para essa doença [dizer mal de nós] ou porque o masoquismo a reforça, dia em que jornais e televisões não se deliciarem a mostrar que estamos na cauda da Europa, em último lugar em tudo o que é bom e em primeiro em tudo o que é mau, não é dia. Parece que Portugal existe apenas como cabide de desgraças descritas até ao mais ínfimo pormenor. E uma chaga sem corpo. Como está tudo mal, as reformas são impossíveis, pois não há nada a reformar. Os cadáveres são irreformáveis. Mas, se alguém tiver a ousadia de mostrar que há reformas inadiáveis para tornar viável o futuro da vida nacional, a reacção é imediata: não estraguem o país com reformas. Quando as reformas estão em marcha, era preciso ter tempo para as discutir porque são precisas, mas não assim. Depois, se as reformas não são realizadas, a orquestra dos mesmos começa a tocar: somos um país adiado, isto nunca mais vai para a frente.
Ibidem
“O caso de ontem e a justificação de hoje” Fevereiro 20, 2008
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Vivemos neste momento, em Portugal, encerrados num debate sobre o caso de ontem e a justificação de hoje. Jornalistas, primeiro-ministro e oposição, antes e depois daquela entrevista [à SIC e ao Expresso], vivem empenhados num exercício de justificação que é no essencial sobre o agora e o pouco antes. O problema é que isso deixa de ser política. José Sócrates falou, eficazmente até, mas apenas de administração: porque fecha aqui e não ali. Perdeu-se o longo prazo. Perdeu-se até o médio prazo, numa compressão temporal que torna tudo estático. (…) o que se pede não é um discurso grandiloquente sobre “o sonho”, “a visão” e “a esperança”, à la Barack Obama. É muito mais simples, e mais difícil, do que isso: o que gostariam de ver acontecer no Portugal dos próximos quatro ou cinco anos? Qual é o debate que consideram central? Não vale responder: “a justiça”, “a saúde”. Isso é um tema, não é um debate. Um debate será, no mínimo, um tema e um argumento, e um objectivo que esse argumento justifica.Rui Tavares, Falta futuro, in Público, 20.2.2008
A religião do consumo Fevereiro 10, 2008
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(…) The distance between “citizen” and “consumer” is the distance we have traveled. Where “citizen” has a certain dignity, even gravitas, carrying with it notions of responsibility and capacity for decision, “consumer” conjures something far more passive, lacking either dignity or responsibility, save responsibility to one’s self and for getting the best deal.
Yet “consumer” has steadily infiltrated our language and become our self-designation and default definition of what it means to be a person. (…)
The subtext of cultural change in the past 30 years has been the way the market has seeped into every sector of life and come to define how we think of who we are and what we do. We are consumers, feeding the great insatiable maw of the consumer economy.
Is it too much to suggest that consumerism has become a kind of alternative faith, a religion of sorts? Religions are characterized by some vision of a good life, by their rituals and by a particular language. Consumerism seems to be developing all three apace. (…)Anthony B. Robinson, Articles of Faith: Consumerism is a greedy society’s religion, in Seatlepi.com, 8.2.2008
Padre António Vieira - A Palavra Fevereiro 6, 2008
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“Para um homem se ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. Que coisa é a conversão de uma alma, senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos, é necessária luz e é necessário espelho. O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?
(…)
“1ª. Mas como em um pregador há tantas qualidades, e em uma pregação tantas leis, e os pregadores podem ser culpados em todas, em qual consistirá esta culpa? [...]
2ª. Será por ventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afectado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? [...]
3ª. Será pela matéria ou matérias que tomam os pregadores? [...]
4ª. Será, porventura, a falta de ciência que há em muitos pregadores ? [...]
5ª. Será finalmente a causa que tanto buscamos, a voz com que hoje falam os pregadores? [...]
Padre António Vieira, Sermão da Sexagésima. Para o ler na íntegra: AQUI.
Bom senso Janeiro 30, 2008
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” (…) Mas, que diabo, não haverá no PSD quem lhe explique que apreender empadas e pastéis de bacalhau ou fechar restaurantes com baratas não é bem a mesma coisa que torturar e matar pessoas?”
Manuel António Pina, in Jornal de Notícias, 30.1.2008
“É preciso uma info-ética” Janeiro 26, 2008
Posted by Luis Santos in Comunicação, Ipsis verbis, Media, Política, Sociedade, Ética.add a comment
“When communication loses its ethical underpinning and eludes society’s control, it ends up no longer taking into account the centrality and inviolable dignity of the human person”
(…)
“For this reason it is essential that social communications should assiduously defend the person and fully respect human dignity. Many people now think there is a need, in this sphere, for ‘info-ethics’, just as we have bioethics in the field of medicine and in scientific research linked to life”
Excertos da mensagem do Papa Bento XVI para o Dia Mundial das Comunicações, que a Igreja Católica assinala a 4 de Maio.
Mensagem completa(em inglês) aqui.
ACT: Mensagem completa em português aqui.
PF não esquecer o jornalista (e o jornalismo)! Janeiro 22, 2008
Posted by Luis Santos in Economia, Futuro, Imprensa, Ipsis verbis, Jornalismo.1 comment so far
So in an effort for newspapers to raise revenues, maintain circulation and provide readers with more information in more ways, another crisis might be upon us. Perhaps lost in this evolutionary period of newspaper journalism is the news worker. When he or she is no longer able, or no longer willing, to provide quality journalism, the journalism of crisis won’t be found on Wall Street or in the circulation data. It’ll be found in the newsroom.
Excerto de um trabalho académico, realizado por Scott Reinardy, com base nas respostas de 770 jornalistas norte-americanos. O trabalho - um estudo quantitativo - conclui que os jornalistas estão hoje mais perto de uma situação de ruptura (”burnout“) do que em 2006 e que quase 75 por cento dos jovens profissionais (menos de 34 anos de idade) expressaram a intenção de abandonar o jornalismo ou responderam ‘não sei’.
Sugestão recolhida no The Editorialiste.
PS: A propósito da necessidade de valorização do jornalista e do investimento no trabalho jornalístico valerá também a pena ler o e-mail que James O’Shea enviou à redacção do Los Angeles Times, depois de ter sido despedido da direcção daquele jornal. O’Shea saiu porque não aceitou fazer os novos cortes orçamentais que lhe pediu o administrador.
Excertos:
I think the current system relies too heavily on voodoo economics and not enough on the creativity and resourcefulness of journalists. We journalists have our faults, but we also have a lot to offer. Too often we’ve been dismissed as budgetary adolescents who can’t be trusted to conserve our resources. That is wrong.
(…)
The biggest challenge we face — journalists and dedicated newspaper folks alike – is to overcome this pervasive culture of defeat, the psychology of surrender that accepts decline as inevitable. This mindset plagues our business and threatens our newspapers and livelihoods.
(…)
This company, indeed, this industry, must invest more in solid, relevant journalism. We must integrate the speed and agility of the Internet with the news judgment and editorial values of the newsroom, values that are more important than ever as the hunger for news continues to surge and gossip pollutes the information atmosphere. Even in hard times, wise investment — not retraction — is the long-term answer to the industry’s troubles. We must build on our core strength, which is good, accurate reporting, the backbone of solid journalism, the public service that helps people make the right decisions about their increasingly complex lives. We must tell people what they want to know and — even more important — what they might not want to know, about war, politics, economics, schools, corruption and the thoughts and deeds of those who lead us.
O desafio da comunicação Janeiro 20, 2008
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“O desafio da comunicação não reside tanto em partilhar algo com aqueles de quem me encontro próximo como conseguir conviver com aqueles, muito mais numerosos, com quem não partilho nem os valores nem os interesses. Não basta que as mensagens e as informações circulem rapidamente para que os seres humanos se compreendam melhor. Transmissão e interacção não são sinónimos de comunicação”.
AR = 460 minutos de TV Janeiro 16, 2008
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“Em democracia, meia hora na televisão é tão importante como 15 deputados no Parlamento”.Luís Filipe Meneses, a propósito dos comentadores políticos na TV, in Correio da Manhã, 16.1.2008
O poder das fontes Janeiro 11, 2008
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“Às vezes sou levado a pensar que a liberdade de imprensa e, em geral, a liberdade de expressão são uma espécie de “fast food” do regime democrático, engordam mas pouco alimentam, tantas notícias chocantes saem todos os dias nos jornais e não têm consequência alguma. Indignam durante um dia e são rapidamente substituídas por outras no dia seguinte; e estas por outras, e por outras, como Sísifo carregando a mesma inútil pedra. O famoso quarto poder é, como o chamou Mário Mesquita, um quarto equívoco. O poder do jornalismo é a face visível do poder das fontes, isto é, do poder político e do poder económico (mais o dos dispersos poderes fácticos que se desenvolvem nos seus interstícios). Por isso, há zonas do funcionamento do regime democrático onde o jornalismo não mete o nariz a não ser que sejam palco de conflitos de interesses onde possa ser usado como arma de arremesso (…)”.Manuel António Pina, “O inútil quarto poder“, in Jornal de Notícias, 11.1.2208
Lomba propõe crónica “interactiva e dialogante” Janeiro 3, 2008
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“(…) Chegou, pois, a altura de eu, por deferência e interesse, solicitar a opinião e participação dos leitores para esta página. Escrever uma crónica não é um exercício complicado. Qualquer um pode fazê-lo. (…) Apelo à vossa prestimosa colaboração. Se vocês tivessem de escrever estes textos, escreveriam sobre o quê? O leitor costuma ser crítico, exasperado, insatisfeito. Um treinador de bancada. Um sinaleiro. (…) Os cronistas de imprensa tendem invariavelmente a escrever para os outros cronistas, quando não escrevem para eles próprios ou para a família. A minha ambição é conseguir fazer tudo isso e, em simultâneo, conceber uma crónica que seja interactiva e dialogante. Não é que eu tenha medo de vocês, leitores. Mas são vocês que mandam nos jornais, nos jornalistas e, por arrastamento, nos colunistas (…)”.Pedro Lomba, Diário de Notícias, 3.1.2008
“Há mais mundos…” Dezembro 30, 2007
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“(…) Faço parte das pessoas que já não suportam os telejornais. Parece que os comunicadoras, ou quem neles manda, continuam convencidos - não só na televisão - de que “uma boa notícia não é notícia”. Fica-se com a impressão de uma caça permanente à desgraça alheia: quando maior ela for, mais audiência terá, mais negócio. Não é por acaso que alterna com a publicidade. Esta procura convencer-nos de que, sem consumir os seus produtos, seremos infelizes.
(…) Compreendo quem anseia por um canal de televisão especializado em descobrir o mundo que não pode ser, apenas, uma colectânea de tristezas nem um mar de rosas, mas a casa do ser humano em todas as suas dimensões e em toda a sua complexidade. Há muito mais mundo que deveria entrar em nossas casas, em horas que não sejam roubadas nem ao descanso nem ao trabalho, do que o noticiário da desgraça. Mesmo acerca dos portugueses seria bom saber e ouvir mais do que a repetição, até a náusea, de que continuamos na cauda da Europa. (…) Será possível curarmo-nos da contínua alternância de exaltação e de depressão e optar por caminhos que nos levem ao encontro daquilo que existe, em nós, de melhor e mais profundo?(…)”.Frei Bento Domingues, in Público, 30.12.2007
Jornalismo “take away” Dezembro 29, 2007
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“O jornalismo está muito dependente dos assessores de imprensa e faz-se uma informação preguiçosa, que já está feita, “take away”. Há também muito jornalismo feito com fontes anónimas. Estamos a tentar inverter um bocadinho isso voltar a trazer as pessoas para a antena, ir ao terreno, recolher histórias. Faz falta o jornalismo que conte histórias, que não fale só do extraordinário, mas do ‘infra ordinário’, o que sustenta a realidade e que diz mais do nosso quotidiano”.
Daniel Cruzeiro, jornalista da SIC, entrevistado por Dina Margato (’A investigação é o calcanhar de Aquiles do jornalismo’, Jornal de Notícias, 29.12.2007)
A falta de um ’sobressalto moral’ Dezembro 15, 2007
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“(…) Os jornais do Porto e alguns desportivos, cujo papel na denúncia deste tipo de ‘meios’ [ do 'Apito Dourado', da claque do FCP, da 'noite' portuense] é escassa para não dizer nula, mesmo quando agressões violentas a jornalistas os deveriam ter obrigado a um sobressalto moral, fazem assim um péssimo serviço à cidade e aos seus valores. Deveriam lembrar-se do rol das agressões a jornalistas que se estende desde o final dos anos 80 até aos dias de hoje e em que os jornalistas desportivos têm um lugar de honra, mas não só. Carlos Pinhão, Eugénio Queirós, João Freitas, Manuela Freitas, Marinho Neves, Paulo Martins, entre outros, a que se associa José Saraiva, militante do PS e director durante muitos anos do Jornal de Notícias, já falecido, conheceram o “meio” na prática. O mais espantoso é que muitos deles nunca apresentaram queixa, outros nunca souberam o resultado das suas queixas, e mesmo quando as agressões são públicas, não se passa nada. Nunca se passa nada e nunca ninguém quer ver. E quando se fala do que está à vista de toda a gente, é uma conspiração ‘lisboeta’, ‘benfiquista’, contra o Porto, o Norte e o FCP e os tambores do ressentimento regionalista rufam contra os ‘mouros’ (…)”.José Pacheco Pereira in Público, 15 de Dezembro de 2007
