Jornalismo: lendo sinais

Dois casos recentes do jornalismo gostaria de aqui evocar hoje. O primeiro foi protagonizado pelo número da revista Time com data de 5 deste mês. A sua capa continha, sobre fundo branco, as fotos tipo passe de 20 pessoas e, em título: “Eu decido: por que os latinos decidirão a escolha do próximo presidente”. Nos dias imediatos à saída do texto, levantou-se na Internet um enorme sururu, não tanto motivado pela relevante matéria tratada no texto, mas por um pormenor da capa. Alguém reconhecera num dos alegados ‘latinos’ anónimos, a cara de alguém que não era de origem ‘latina’ (significando nos Estados Unidos da América, regra geral, originário de países da América Latina).


O segundo caso vem no número de Março do jornal “Madeira Livre”, do PSD daquela Região Autónoma. Traz na última página cinco fotos igualmente tipo passe de outros tantos jornalistas e sobre elas este título: “São estes indígenas que também viram contra nós a opinião pública do continente”.
No primeiro caso, jornalistas são autores de um erro, que poderíamos classificar, apesar de tudo, venial, descoberto e ampliado por leitores atentos (e, não raro, mais dados a comentar o secundário e até anedótico do que o essencial); no segundo caso, são jornalistas o bode expiatório de um regime de condicionamento a que nenhum poder se atreve a pôr cobro.

Dois pequenos sinais, duas metáforas de outros tantos problemas que, numa escala maior, afectam esse bem essencial e complexo para as democracias, que é o jornalismo.
Todos sabemos que vive dias muito difíceis e que as dificuldades podem ser a sua sepultura, se ficarmos quedos, ou a sua reinvenção, se agarrarmos a oportunidade que nos é dada. Ora, teve início esta semana, em Coimbra, um ciclo de debates e auscultações sobre o futuro do jornalismo, conduzida sob a animação de um jornalista de referência como é Adelino Gomes, que percorrerá o país até ao próximo Outono, reunindo cidadãos, investigadores, estudantes e … jornalistas. Estes últimos, porém, não foram muito notados nas duas sessões que já decorreram. Qualquer mudança não se poderá fazer sem os jornalistas. Mas para isso, é naturalmente preciso que eles a queiram fazer. O jornalismo lê sinais e interpreta a actualidade. Há que ler também os sinais do jornalismo.

(Texto publicado na edição de hoje do jornal Página 1, da Renascença)

Complemento:

  • Sobre a capa da Time, ver uma leitura que segue uma direção distinta e mais aprofundada da que aqui faço, neste artigo de Eugênio Bucci, intitulado “Imagens invisíveis“.
  • Sobre o caso do “Madeira livre” (!), o Sindicato dos Jornalistas emitiu um comunicado em 1 deste mês, no qual denuncia “uma tentativa de condicionamento da liberdade dos jornalistas” que ” pode constituir uma instigação, nomeadamente para os militantes e simpatizante do PSD-Madeira, à perseguição dos jornalistas visados, ou pelo menos uma indicação implícita a atitudes incorrectas para com os visados”.