Aquele anúncio dos cavalos é o quê?

No livro ‘O retrato de Dorian Gray’, Oscar Wilde escreve: “But beauty, real beauty, ends where an intellectual expression begins“.
Numa leitura um nada mais prosaica, Boss AC diz-nos, na letra da sua mais recente música, “Ó Homem fazias-me rico em vez de bonito”.
Há, em ambas as frases, a noção da mútua exclusão; no primeiro caso entre a beleza e a expressão intelectual e, no segundo, entre a beleza e a fortuna (alguns, certamente iludidos, poderiam até pensar que as duas são próximas).
A publicidade – a Publicidade de grande qualidade – sempre viveu na corda bamba que continua a esticar-se entre estas polaridades; sempre quis ocupar territórios que, em simultâneo, nos deslumbram e nos provocam; sempre quis cativar-nos com astúcia, com elegância, com humor. E sempre – sobretudo depois dos pioneiros anúncios do VW carocha nos Estados Unidos – fez por mostrar-nos que tinhamos direito a muito, a partir de muito pouco.

A mais recente publicidade televisiva da Portugal Telecom contraria tudo isto.
É lindíssima, mas não tem mensagem absolutamente nenhuma.
É caríssima e faz tudo para não o esconder.

O novo (e longo – outro detalhe de ostentação) anúncio mostra-nos um universo fictício, muito belo, descoordenado, aleatório, onde tudo pode acontecer (e com o dinheiro gasto – tudo acontece mesmo!) mas onde tudo vale muito pouco porque não há propósito.
Nesse mundo imaginário, com amazonas em câmara lenta e setas que, por entre nuvens de talco, rasgam o infinito, não há horizonte – os fundos são sempre negros – e não há cronologia.
O tempo e o espaço não existem e os indivíduos saltam e contorcem-se no vazio.
Não são gente, certamente (como diria o outro), porque gente não é assim – nós somos história, somos espaço e somos relações.
Os personagens azulados do tal anúncio rico, que afinal é muito pobre, são coisas, são instrumentos.

A PT, que não sabe o que há-de fazer ao dinheiro que ganha à custa dos inúmeros monopólios (ou pseudo ‘posições dominantes’) que detém, diz-nos que bem, bem, era sermos mesmo como os amorfos estrunfes do seu anúncio – alegres saltitões calados.
E ‘calados’ é, para eles, mesmo muito importante.

Copy and paste

As assessorias políticas precisam estar mais atentas às mudanças de paradigmas na comunicação, que deslocam o eixo dos veículos de massa para as redes sociais.

Caso contrário, cometem o grave erro de não informar corretamente aos cidadãos comuns que, por meio das ferramentas online, entram em contato com o agente político para colocar questões sobre determinados assuntos da esfera pública.

Um caso explícito de falha comunicativa ocorreu a partir de respostas dadas pela deputada Francisca Almeida (PSD), que foi questionada via email por alguns interessados no processo de implementação da TV digital terrestre, a respeito de declarações que havia dado ao Correio da Manhã, para justificar que votaria contra a proposta para a inclusão de mais canais da RTP na TDT.

Eu fui um dos interessados que mandou um email. Dez dias após o envio da mensagem, a deputada respondeu-me de forma genérica, não mencionando diretamente muitos dos pontos que eu havia levantado.

Publiquei a resposta em meu blog pessoal e, para minha surpresa, dois dos leitores relataram que também haviam questionado a deputada e que receberam um email com exatamente o mesmo teor, ipsis litteris.

Esqueceram que as pessoas conversam no mundo online. É esta a lógica da construção coletiva do conhecimento. É esta a lógica que a comunicação política também deveria seguir.

Como disse Dan Gillmor:

“When you become an active user of media, you can do much more than gain confidence that you know what you’re talking about. Millions of people already are taking it further, engaging in the emergent global conversations that help us and our communities every day. (…) The online culture is inherently participatory and collaborative, which makes this easy.”