Público: uma agenda para depois da festa

O PÚBLICO faz hoje anos e é de justiça saudá-lo e quem o inventou e lançou e o tornou uma referência (que já foi mais do que hoje é) no jornalismo português. Não é ainda  o momento de fazer uma apreciação das mudanças agora introduzidas. Afinal, a edição de hoje é a de um dia especial.
Muitas perguntas terão certamente os leitores do Público (o seu público, efectivo e potencial), que gostariam de ver respondidas e tratadas pelo Público. Sobre a sociedade e também sobre o próprio jornal. Mas para isso era preciso que o Público estivesse interessado em perguntar e escutar. Não num dia especial; não a uma ou outra figura de proa. Mas aos cidadãos, aos leitores, mesmo aos que (ainda) não lêem o Público. A lista das perguntas de José Gil, que por falta de tempo, por falta de dados, por obstrução ao trabalho dos jornalistas, por opacidade de quem devia tornar mais transparente a vida pública, não puderam ter resposta na edição de hoje, pô-las o Publico nas suas páginas. Não certamente para as enterrar no esquecimento. Recordo-as abaixo, como que em desafio para que a Redacção possa continuar a investigar, a procurar, a escutar. Mas há muitas mais . Cada um de nós teria umas boas dezena delas. E apresentá-las-ia, contanto que o Público as acolhesse e fizesse delas desafio para o trabalho quotidiano. Haveria, sem dúvida, muita gente disposta a colaborar. Se…


[AINDA] Sem resposta:


  • Quantas horas os responsáveis estimam necessárias para os professores prepararem as lições? Quais as competências fundamentais que a escola ignora quando avalia os alunos?
  • Quanto é que os alunos realmente aprendem das matérias que lhes são ensinadas?
  • Que consciência têm os responsáveis pelas políticas educativas da especificidade da profissão de docente?
  • Quantos alunos desistem do ensino superior por razões económicas?
  • Que peso tem a relação aluno-professor na definição das políticas educativas?
  • Quantos deputados usaram informação secreta em benefício próprio?
  • Quantos portugueses se sentem representados pelos deputados?
  • Quantos documentos estão em segredo de Estado? E que documentos?
  • Quantos detentores de cargos públicos tentaram manipular jornalistas na democracia?
  • Quantos detentores de cargos públicos foram acusados de assédio sexual?
  • Quantos políticos têm negócios em ofshores?
  • Quantos ministros foram ocupar cargos de chefia em grandes empresas depois de abandonarem o governo?
  • Quantos crimes não chegam a ser denunciados porque as vítimas não acreditam na Justiça ou têm medo dos agressores?
  • Quantos portugueses não têm medo: da autoridade? Do Estado? Dos políticos? De perder o emprego? De arriscar? De assumir responsabilidades?
  • Quantos portugueses não vão emigrar em 2012 por não terem coragem para o fazer?
  • Qual a percentagem de portugueses que subornaria alguém?
  • Quanto custa em média ao Estado um julgamento de um pequeno delito?
  • Quantos políticos condenáveis por tráfico de influências, corrupção e peculato foram realmente investigados? Quantos foram condenados?
  • Quantas mulheres foram sexualmente abusadas ao longo da vida?
  • Quantos condenados pelo crime de pedofilia cumpriram a pena a que foram condenados até ao fim? Qual a percentagem dos últimos relativamente aos pedófilos portugueses?
  • Quantas pessoas vão morrer até ao fim deste ano por não terem acesso aos tratamentos adequados?
  • Quantos portugueses morrem por não serem atendidos a tempo?
  • Quantas pessoas morrem por ano devido a erros de prescrição médica?
  • Até que ponto em Portugal as taxas de mortalidade variam em função das diferenças sociais?
  • Quantas pessoas vivem mal por ignorarem que o seu problema é do foro psiquiátrico?
  • Quantos portugueses tomam antidepressivos e ansiolíticos? Quantos os tomam sem necessidade?
  • Quantas mortes por suicídio se devem a depressão?
  • As doenças psíquicas que hoje atingem mais os portugueses são diferentes das doenças psíquicas mais comuns antes de 2004?
  • Em que medida o conhecimento da História de Portugal desde o 25 de Abril contribuiu para o seu sentimento de ser português?
  • Quantas pessoas escondem a sua homossexualidade?
  • Em que medida a política do seu país lhe dá mais orgulho em ser português?
  • Sente-se mais, menos ou tão português agora do que antes da entrada de Portugal na Comunidade Europeia?
  • Gosta mais de si por ser português?

Bloggers, marcas e consumo

Longe de serem um meio de massas, os blogues não deixam, contudo, de constituir um nicho interessante: nicho de presença dos cidadãos nos media, nicho de reflexão, nicho de discussão e até mesmo nicho de algumas notícias. Por isto tudo, serão também um nicho de mercado a não desprezar pelas indústrias. O relatório da Technorati de 2010 incluiu uma secção sobre a relação entre os bloggers e as marcas, reflectindo sobre a crescente importância que este meio desempenha na promoção e debate sobre os produtos do mercado. Também as empresas reconhecem o potencial da blogosfera na gestão das marcas, tendo havido casos, nomeadamente em Portugal, de conflito e acções judiciais envolvendo bloggers e empresas. Mas a tendência geral no relacionamento entre ambos não será tanto de confrontação, mas sim de cooperação. São já muitos os bloggers convidados por empresas a participar em conferências de imprensa ou eventos, desde desfiles de moda à apresentação de desodorizantes. O reconhecimento dos bloggers como interlocutores a ter em conta é obviamente importante na promoção de uma esfera pública dinâmica e reflexiva, que contempla o contributo de cidadãos e pessoas interessadas no debate. Contudo, será sobretudo relevante se for capaz produzir discussão sobre as estratégias publicitárias e comerciais, abertas à participação dos cidadãos, e um consumo informado e informativo.