Diários de uma câmara oculta (2): a câmara-aparentemente-oculta da TVI

Após o nosso recente “post” sobre o assunto, um novo episódio, a conversa informal captada pela TVI entre os ministros das finanças português e alemão, fez com que a discussão acerca do uso de câmaras ocultas no jornalismo atravessasse a fronteira ibérica: de Espanha viajou para Portugal, passando agora também pela Alemanha. No entanto, tal como se depreende da nossa anterior análise, apesar de toda a complexidade que algumas destas situações introduzem, não deve confundir-se a câmara-propriamente-oculta com a câmara-aparentemente-oculta.

Acerca da primeira, já antes denunciámos os traços que a tornam um instrumento de controlo absoluto, de tipo divino,  do processo de produção do visível, pelo jornalismo, o que implica o escrutínio meticuloso dos critérios que levam ao seu uso, tornando-o, tal como escreve Estrela Serrano no blogue Vai e Vem, um procedimento absolutamente excepcional. É por isso, também, que a interdição decidida pelo Tribunal Constitucional espanhol, significa uma interdição prática, imposta ao próprio jornalismo, de um poder lato de controlo sobre os processos de produção da mensagem jornalística. Ou seja, significa o surgimento de uma restrição normativa à liberdade dos jornalistas, liberdade que, no entanto, só se legitima perante circunstâncias extraordinariamente raras.

Quanto à segunda, não é difícil perceber porque é que, ao analisarmos um processo de ocultação do instrumento de registo usado no procedimento jornalístico, só se deve falar numa câmara-aparentemente-oculta. Há, desde logo, o aspecto prático: não há câmaras ocultas numa sala cheia de câmaras de televisão, e na qual as câmaras de televisão estão autorizadas a trabalhar. O que se oculta, então?

Diríamos que, não havendo câmaras ocultas, o que se pressupõe como não-presença, numa circunstância como esta, é o próprio jornalismo. Na captação de imagens deste tipo de encontros, assume-se um acordo tácito que remete para um híbrido entre o “on-the-record” e o “off-the-record”: às imagens captadas dos momentos prévios a uma reunião que decorrerá à porta fechada, é tacitamente retirado todo o conteúdo jornalístico, ou seja, as imagens serão usadas, mas servirão apenas de ilustração. Assume-se que, no restante, são verdadeiramente silenciosas, ou seja, nada dizem de jornalisticamente relevante. É neste tipo de acordos tácitos, que existem no terreno do não-dito e do não-escrito, que se baseia a captação de imagens destas situações. Pressupõe-se, pois, que tudo o que registam é vazio e está vazio. E é nesse vazio que se situam as conversas supostamente informais que as imagens registaram.

No entanto, e é aí que se ancora o principal argumento usado pela Direcção de Informação da TVI para defender o tratamento e difusão noticiosa da conversa, toda a operação jornalística tem uma natureza pública: visa a produção do visível. Ora, estando os repórteres devidamente identificados e no pleno exercício das suas funções, não se pode assumir uma não-presença do jornalismo: ele pode sempre emergir, a partir do momento em que, detendo o controlo (editorial) do seu processo de produção, encontra  aspectos relevantes, que devam ser noticiados. Estamos, pois, mais uma vez, no domínio do controlo do processo de produção. Trata-se de um raciocínio que se aplica, por exemplo, em circunstâncias como esta, a situações tão simples como os cumprimentos e encontros face-a-face entre responsáveis políticos, como sucedeu, recentemente, com as imagens do primeiro-ministro inglês David Cameron e do presidente francês Nicolas Sarkozy na cimeira europeia de Dezembro, cuja interpretação remeteu para o isolamento da posição britânica no seio dos 27.

Na altura, ninguém se queixou de uma câmara oculta…

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13 thoughts on “Diários de uma câmara oculta (2): a câmara-aparentemente-oculta da TVI

  1. A captação de um diálogo entre dois importantes agentes públicos, que falam sobre temas que interessam a toda Europa, é o jornalismo no seu melhor. Sem casos assim a cobertura fica condenada à versão oficial, que não precisa de jornalistas para divulgá-la. Basta que as fontes publiquem o que querem nos sites institucionais e que alguém transcreva a informação nos jornais. Aliás, é oque muitos veículos já fazem.

  2. desculpem meter-me entre jornalistas, mas não concordo, de todo com o que foi feito, nem com o dizer que isto é jornalismo no seu melhor.
    Porque isto não voltará a acontecer, e mais isto apenas torna mais difícil a relação entre poderes, que já de si são bastante desiguais. Portugal não passa de um peão, e precisa deste tipo de negociação mais informal para fazer avançar as suas tropas no tabuleiro. Se ainda por cima, quando consegue fazer avançar alguma coisa, provoca um sarilho de meio mundo, aquilo que até poderia ter sido conseguido com aquela conversa esvai-se. Não vejo como isso possa ser benéfico para o povo português, nem para mais ninguém, além da TVI.

  3. E mais, Luis é claro que os jornalistas podiam utilizar a informação que tinha advindo daquela conversa, dizendo o que lhes parecia com fonte anónima. Agora mostrar as imagens, e dizer está aqui a prova, é para mim uma total invasão do espaço privado. Não concordo, e sinto nisto medo, tal como sinto das câmaras espalhadas pelas ruas das cidades. É a perseguição total, é um viver sem descanso, e não quero viver num mundo desses, em que nunca estamos seguros, já me chega os milhares de telemoveis com câmaras, agora nem nos jornalistas podemos confiar.
    Não me digas que as câmaras estão lá, e que eles estão cientes, isso é muito baixo. Porque a percepção de uma câmara, é imagética, não sonora. Aquilo que se passou naquela conversa foi numa voz bastante baixa, bastante dissimulado, e a prova disso é a necessidade de usar legendas. Logo eles tinham a perfeita noção que as câmaras não estavam autorizadas a utilizar som das conversas inter-pares à mesa, o tal round table.

  4. Nélson, neste “post”, como em especial na reflexão mais teórica que o “post” anterior com o mesmo título propunha, não se faz a defesa genérica de um jornalismo feito a partir de uma posição de ocultação, ou seja, de um jornalismo que se anonimiza para se produzir. Propõe-se, pelo contrário, que o ponto de partida para qaulquer análise seja o de um forte questionamento. Mas neste caso particular, o que se questiona é se a câmara, naquelas circunstâncias, deve mesmo ser tomada como “oculta”. Não me parece, sinceramente, que uma conversa como a que estamos aqui a analisar, possa ser considerada “privada”. Será, no máximo, uma conversa informal cujos interlocutores pressupuseram não vir a ser divulgada. Não porque exista qualquer acordo prévio de não divulgação destas conversas (como explico no “post”, o que existirá, no máximo, é um acordo tácito, baseado no facto de estas situações serem normalmente usadas para captação de imagem de “ilustração”. Mas todo o seu conteúdo é inegavelmente público e os interlocutores têm obrigação de o saber. Como têm obrigação de saber que estão a conversar sobre assuntos de interesse público junto a jornalistas! São eles, antes de mais, os responsáveis pela situação. Como diz José Alberto Carvalho na sua argumentação, bastava-lhes esperarem que os jornalistas saíssem da sala para poderem conversar sobre tudo em situação mais “privada”, dado que estas reuniões decorrem à porta fechada. Portanto, reforço, neste caso parece-me que não estamos perante uma “câmara oculta” ou algo que se assemelhe. E questiono-me mesmo se um jornalismo que passe a ter de ser feito em circunstâncias de total controlo externo do seu processo de produção, vale a pena. Porque é precisamente esse jornalismo tolhido que mais se aproxima da mera lógica comunicacional, morrendo como mediação independente, logo, morrendo aos poucos.
    (P.S.: Pelo que expus, também não me coloco de forma entusiasmada em defesa destas estratégias, ao contrário do que me parece fazer o Sérgio).

  5. Eu percebo o lado do jornalista, que tem de fazer o seu trabalho, mas não aceito que este quebre as regras que são aceites para participar num determinado evento.
    Tal como não aceito ser filmado quando passo nas ruas das cidades, que por serem públicas me impedem de não poder usar o meu direito de não ser filmado. Ser filmado por câmaras de jornalistas, ou comuns cidadãos.
    Estamos a avançar por um caminho que apenas nos conduzirá à deterioriação da vida em comunidade, levando a que as pessoas cada vez mais se retenham, higienizem o comportamento em público, e desse modo terminem com o que ainda vai restando do valor comunitário

  6. Percebo perfeitamente a tua preocupação, Nelson e revejo-me nela, nomeadamente, naquilo que se refere à higienização do comportamento provocada pela interiorização da sociedade videovigilante. Mas não me parece que sejam comparáveis situações como as que referes. Não me parece que tenha rigorosamente nada a ver uma reunião de ministros das finanças da UE, detentores de cargos públicos e sujeitos ao escrutínio público, durante a qual podem ocorrer conversas informais, com a situação do cidadão anónimo em locais públicos.

  7. Qual o valor mais importante? No caso: direito à privacidade e seguir o acordo preestabelecido de não áudio ou o interesse público das declarações e consequente dever de informar?
    O que nos leva à questão: Qual a relevância das declarações para os cidadãos Reveste-se de uma importância que torna menos grave desrespeitar o acordo do que a não revelação das mesmas? E faz necessário, primeiramente, definir «interesse público».

    O que é mais importante? O que se torna menos danoso?
    A imparcialidade jornalística sobrepõe-se quando em causa estão direitos humanos? Claramente a resposta é não. E o interesse público sobrepõe-se ao direito de privacidade? Depende. Neste caso existe conhecimento de jornalistas e de câmaras, mas existe também um acordo, é certo. Por um lado temos uma combinação estabelecida com os jornalistas e uma conversa informal, por outro, uma conversa informal (mas não privada) de assuntos «formais», feita no exercício de cargos públicos, um assunto e uma declaração que diz respeito e é de máxima importância para todos nós (e é um dever jornalístico informar e um direito meu ser informada de algo que me diz respeito também a mim).

    Na minha opinião, devido à relevância pública das declarações, a balança pende para a divulgação, apesar do acordo. Pois torna-se mais grave possuir uma informação com tamanha relevância para os cidadãos e não os informar do que romper o acordo preestabelecido.
    No entanto, é preciso também tentar perceber quais as possíveis consequências dessa divulgação, contribui, de facto, para o esclarecimento público?

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    Penso ainda que não se podem misturar realidades diferentes. Uma coisa é uma «câmara oculta» em local privado ou em local público, mas um não palco de discussões que nos afetam a todos e que lá está por motivos bem diferentes, outra é uma câmara num espaço de conversas que têm tanto de informais como da maior solenidade pública possível.
    Apesar do acordo de não áudio, são duas presenças(câmaras) bem distintas.

  8. Caro Luís (e restantes comentadores),

    Há um elemento muito relevante que parece ter ficado de fora da vossa análise – o impacto ‘comercial’ da ação da TVI.
    Parece-me interessante discutir de que forma a empresa defende a primazia do direito a informar mas uma apreciação deste tema não pode deixar de lado a noção de que a ‘cacha’ garantiu menções nos outros canais de TV e noutros órgãos de informação durante alguns dias.
    E isso, naturalmente, também entrou na equação num projeto comercial que faz, por estes tempos, um esforço para reposicionar a sua informação.

    Uma questão polémica no mundo dos jornais sempre foram os relatórios que chegam às redações com a indicação ‘embargo até…’. Enquanto há, na profissão, quem defenda que este acordo tácito com a entidade que fornece a informação favorece o jornalismo – uma vez que permite uma análise detalhada do documento e a preparação de um trabalho consistente sobre o mesmo – há também que defenda que o jornalismo deve primar pela divulgação da informação o mais cedo possível e que não deve orientar-se pelos interesses de entidades externas.

    Convoco à conversa este ‘clássico’ porque me parece que estamos perante algo muito semelhante.
    A câmara da TVI não conseguiu um ‘furo jornalístico’ – o que fez foi furar um entendimento mais ou menos aceite por todos, políticos e jornalistas, relativamente ao uso jornalístico das imagens recolhidas naqueles momentos. E esse entendimento existia, sobretudo, para benefício das televisões que, em situações daquela natureza lutam diariamente contra a escassez de imagens.
    Digo existia, porque creio que não vai existir mais, pelo menos da mesma forma e, sobretudo, para as empresas portuguesas.
    Acho, neste enquadramento, que é relevante dizer que dois dos mais experientes jornalistas portugueses a cobrir este tipo de eventos, o Fernando de Sousa (SIC) e o António Esteves Martins (RTP), foram ‘comidos’ pela TVI.
    Quem os conhece, sabe bem que isso é coisa praticamente impossível de acontecer em condições normais.

    O que nos sobra de tudo isto, em termos de valia específica do jornalismo. Pouco. Muito pouco.
    A TVI podia ter feito trabalho jornalístico com o que recolheu – podia, muito facilmente, ter confrontado o ministro português com as declarações e ter-lhe pedido um comentário formal sobre o assunto…podia ter feito o mesmo com o seu homólogo alemão.
    Mas isso daria trabalho e, mais relevante ainda, não garantia honras de menção obrigatória na SIC e na RTP no próprio dia e em dias seguintes.

    Quem não se diga, um dia, que o jornalismo definhou por razões desconhecidas…

    • Concordo com tudo, mas há duas coisas que não percebi: o alcance da última frase e a afirmação sobre os dois jornalistas referidos pelo nome. O que é que seria impossível de acontecer e o que é que são, neste contexto, condições normais? E, já agora, em que ocasião, do alto da sua experiência, é que esses dois senhores nos proporcionaram um furo, jornalístico ou de “entendimento”, seja lá isso o que for (basta um exemplo, para não dificultar a tarefa).

  9. Quanto às possíveis consequências de que falo, além do contributo ou não para o esclarecimento público, referia-me, precisamente, em pensar também quais as consequências para o jornalismo e, consequentemente, para os cidadãos, porque é evidente que se em eventos posteriores, os jornalistas ficarem impedidos de entrar, somos todos nós que ficamos a perder. E há ainda a possibilidade da respetiva conversa entre ministros ficar sem efeito e, uma vez mais, perdermos todos. Por outro lado, deveria a comunicação social ser cúmplice? Para mim não. Nesse sentido, talvez não tenha sido a melhor forma de lidar com a situação, poderia, de facto, ter aqui havido uma tentativa de contornar a questão e «informar indiretamente», de forma a causar menos «danos» para todos. E, sim, concordo que isso muito provavelmente não aconteceu devido a um aproveitamento da tvi para usos promocionais…
    E estou ainda a pensar qual seria a nossa reação se o caso fosse omitido pela tvi e apenas soubéssemos dele muito mais tarde…

  10. Caros atentos leitores. ;)
    Estou mais próximo, neste caso particular, da leitura da Filipa do que das preocupações “economicistas” do Luís.
    Como é óbvio, não se pode negar o benefício económico que decorre para a TVI da divulgação desta gravação. E não nego que não devemos ser “anjinhos” ao ponto de considerar que foi só o jornalismo/interesse público que aqui contou como critério. Mas acho que, neste caso, o ganho económico e comercial é um “by-product”, um ganho colateral que, obviamente, a TVI não desdenhou.
    Para mim, o caso deve ser, no entanto, lido de outra forma. E continuo a considerar que a mesma decorre de um controlo do processo de produção da mensagem jornalística. Vejamos: normalmente, estas imagens surgem nas redacções de televisão sem qualquer valor que não seja o que nelas está pressuposto. São imagens “de hoje”, que visam ilustrar as peças que serão feitas “hoje” sobre o assunto. Acontece, porém, que no caso destas imagens alguém se lembrou de que elas poderiam ter conteúdo para além do que é normal. E esse alguém foi, forçosamente, um jornalista, ou teriam tido as imagens o mesmo destino que todas as imagens deste género têm: ilustram peças. Pessoalmente, como jornalista, acho até que foi avisada e jornalisticamente sagaz a decisão de visionar com atenção as imagens captadas por um repórter de imagem (que deve ter dado conta de que as tinha, logo, executando o seu papel). Não nos esqueçamos do seu conteúdo: elas retratam uma conversa (que podia ser sobre cebolas) entre os ministros das finanças de Portugal e da Alemanha. Pressupondo que desta situação não havia qualquer conhecimento prévio por parte da equipa da TVI (às vezes, há “sopro” de que esta ou aquela situação pode ocorrer…), julgo que o trabalho dos jornalistas e o facto de se ter feito uma avaliação editorial do conteúdo registado, são inatacáveis. Fizeram o que tinha de ser feito nestas circunstâncias. E se na conversa se afirma o que se afirma que, inclusivé, aponta para uma disponibilidade alemã para aceitar uma renegociação da situação portuguesa, julgo mesmo que a única forma credível de o demonstrar é a divulgação da gravação. Mais uma vez recordo que, nestas situações, há apenas um acordo tácito. Os acordos de embargo são de índole diferente. Envolvem outro nível de acordo, isto é, envolvem uma negociação situação a situação. Não é este o caso. Aqui apenas se pressupõe que as imagens serão apenas usadas para “ilustrar” as peças. Repare-se que, como eu tento demonstrar no “post”, esse acordo tácito nem sempre tem sido cumprido, fazendo-se notícia do conteúdo das imagens, como sucedeu recentemente com o “cruzamento em passo acelerado” entre Sarkozy e Cameron…

  11. Concordo com tudo, mas há duas coisas que não percebi: o alcance da última frase e a afirmação sobre os dois jornalistas referidos pelo nome. O que é que seria impossível de acontecer e o que é que são, neste contexto, condições normais? E, já agora, em que ocasião, do alto da sua experiência, é que esses dois senhores nos proporcionaram um furo, jornalístico ou de “entendimento”, seja lá isso o que for (basta um exemplo, para não dificultar a tarefa).

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