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Os meandros complexos da comunicação Junho 8, 2009

Posted by Joaquim Fidalgo in Comunicação, Imagem, Media, Política.
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Ainda em tempo de rescaldo eleitoral, passei hoje de manhã por um dos cartazes de campanha de Paulo Rangel.

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São de facto, como muita gente já disse, cartazes pobrezinhos, baços, pouco ou nada apelativos, quase artesanais. Mais adiante, passei por cartazes do PS: enormes, modernos, bem produzidos, directos, cheios de cor, ricos. Mas o que é verdade é que os primeiros ‘ganharam’ as eleições e os segundos ‘perderam-nas’… Claro que é reducionista colocar as coisas assim, de modo tão simples, mas deixou-me a pensar como as estratégias de comunicação dos partidos, só por si, não são garante automático de sucesso. As célebres “teorias dos efeitos” dos media sobre as decisões políticas das pessoas estudam estes assuntos há décadas, e hoje sabe-se que não há, de facto, uma tradução directa das campanhas eleitorais nos votos efectivos.

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Num tempo em que se aposta até ao exagero em feéricos meios técnicos, em grandes cenários para televisão filmar, em músicas cientificamente estudadas para empolgar, em enormes cuidados na roupa ou no cabelo dos candidatos, em coisas do puro domínio ‘da forma’, é curioso constatar que os resultados obtidos podem sair tão ao contrário… Com aquele espectáculo todo que vimos na campanha, com os comícios tão cheios de bandeiras, com autocarros, camiões, brindes, folclore, encenação super-profissional e dinheiro q.b., o PS acabou por perder as eleições. Com aquela pobreza de cartazes, com umas acções de campanha mais modestas e meio solitárias, com uma suposta incapacidade de mobilização, com Paulo Rangel sozinho e abandonado, o PSD acabou por ganhar as eleições.

É claro que a campanha não explica tudo, longe disso. Mas também me parece que há aqui alguma matéria de reflexão sobre estas apostas excessivas na ‘comunicação’ super-profissionalizada (e super-cara) em que alguns partidos quase cegamente apostam, esquecendo-se que, afinal, se calhar é o conteúdo – e não a forma – que mais pesa nas decisões das pessoas.

Quem viu as campanhas de rua do PS e do PSD, nomeadamente através da televisão, quase garantiria que o PS tinha a vitória no papo (o próprio PS o imaginava, e agiu sobranceiramente em consonância, como foi por demais evidente). Afinal, quem ganhou foi o PSD… O que é que decidiu, então, a maior ou menor eficácia da comunicação de um e outro? Não terá sido uma questão de… substância?

Comentários

1. RC - Junho 9, 2009

Não me parece que tenha sido a vitória da substância ou do conteúdo sobre a forma. Bem sei que neste texto se aborda a “cosmética” das campanhas, mas eu colocaria as coisas de outra forma, mais corriqueira, menos meritória para o PSD e igualmente triste para o PS: foi a vitória do descontentamento sobre a forma.

Contra o descontentamento, a forma nada pôde.

Joaquim Fidalgo - Junho 10, 2009

Só um esclarecimento, RC, já que o meu texto podia, de facto, induzir em erro sobre o meu pensamento: eu também não acho que tenha sido a ’substância’ do PSD a ganhar as eleições, pois não vi por lá substância de jeito; o que acho é que foi a falta de ’substância’ do PS que o levou a perder as eleições. A pura aposta na ‘forma’, em dispositivos sofisticados de comunicação e marketing para dar a ideia de uma grande mobilização (e de uma suposta dinâmica de vitória…), provou ser ilusória e ineficaz, porque não se apalpava ‘conteúdo’ real ou prática coerente por detrás do “show”. E, como muito bem diz, nenhuma ‘forma’ conseguiu disfarçar o enorme descontentamento das pessoas com o PS.
O que eu queria pôr em reflexão era apenas o facto de ser enganador o caminho de uma política basicamente centrada nos aspectos formais e no espectáculo audivisual, pois os cidadãos cada vez menos decidem em função disso (se é que alguma vez decidiram…). Os cidadãos não são parvos e é bom que não ois tratem como tal.
Obrigado pelo seu comentário, com que naturalmente concordo.

2. nelson - Junho 13, 2009

JF este é um assunto que me interessa, mas aqui é demasiado complicada a sua aferição. Do meu ponto de vista acima de tudo porque nenhum cartaz politico conseguiu comunicar o que quer que fosse, tendo em conta os 65% de abstenção. Não é uma questão de forma ou de conteúdo, é mais profundo e abrangente, é do contexto que está demasiado presente para permitir a passagem dessas duas variáveis, ou seja torna-se impenetrável. O que nos diz que afinal as pessoas pensam e não votam cegamente… em ideias ou cores…

Nesse sentido veja-se que a abstenção não deveria ser ignorada ou “espezinhada” como foi agora pelo Presidente da Republica, mas deveria servir a classe politica numa maior auto-critica. Não venham dizer que quem “empobrece a democracia” é a abstenção, quando nenhum partido se dá ao respeito com as inúmeras peripécias que têm vindo a público nos últimos tempos, a começar pelo bizarro aumento do financiamento para “milhões” dos partidos em tempos de crise aprovado por unanimidade na assembleia e a acabar numa perda efectiva de 2,5 mil milhões do erário público enterrados num buraco. E depois digam que nao precisamos de TGVs nem aeroportos, porque não temos dinheiro. E querem que as pessoas votem? mas em quê, e em quem? serão uns meros cartazes capazes de alterar isto…

Na linha do que disse RC concordo com o texto de de JUAN JOSÉ
“Por defunción” no El País de ontem (http://www.elpais.com/articulo/ultima/defuncion/elpepuopi/20090612elpepiult_1/Tes)

3. nelson - Junho 14, 2009
4. RC - Junho 15, 2009

E eu, vistas as coisas dessa forma, também não podia concordar mais. Foi bom ter trazido o tema para este espaço!

RC - Junho 16, 2009

(isto era em resposta ao que o Joaquim Fidalgo disse do meu primeiro comentário)

5. António Larguesa - Junho 17, 2009

uma achega sobre o tema, com os comentários aos cartazes das Europeias por um especialista em comunicação política

http://www.jornaldenegocios.pt/index.php?template=SHOWNEWS&id=371596

abraço, joaquim!

Joaquim Fidalgo - Junho 18, 2009

Obrigado pela achega, António! Trabalho bem interessante, sim senhor… Abraço.

RC - Junho 18, 2009

Também achei, apesar de profundamente subjectivo, claro. Mas tinha aspectos muito interessantes.

nelson - Junho 18, 2009

do que é referido por Yuri Morejón o que fica é mesmo o vazio dos slogans e a pouca eficácia formal de qualquer um dos cartazes. não há muitas dúvidas sobre o facto de isto serem eleições de 2ª e como tal o investimento é menor.

de todos, os do PSD pareceram-me sempre mais coerentes que os do PS pelo facto de se sentir o candidato, ao passo que nos do PS parecia tudo envolto num abstracto.
já os da CDU eram muito fracos, mas piores ainda porque se descolaram por completo da sua tradicional imagem revolucionária que agora fica sempre para o BE.
o PP enfim, posters de revista muito bonitinhos e inchados de vazio.

agora faltava era o JNeg pedir ao analista que cruzasse as suas leituras com os resultados :)

6. fractura.net! » Blog Archive » A FALTA DE CARTAZES E O VAZIO IDEOLÓGICO | : EM DESTAQUE, COMUNICAÇÃO POLÍTICA, DEMOCRACIA - Junho 19, 2009

[...] Mas atentemos nas palavras de José Luís Garcia, que apresenta ainda uma outra ideia acerca da utilização de cartazes de carácter icónico mais marcante – ou a falta desta – na Europa: «O sistema político da União Europeia, e de cada um dos Estados europeus, não tem tendência para forjar personagens com a força mítica e icónica de um Barack Obama. A primeira porque a sua personalidade mais importante resulta de uma escolha feita pelos directórios dos partidos maioritários nas costas dos eleitores. E do ponto de vista de cada um dos Estados, por razões sociais e políticas de fundo, as oligarquias políticas europeias não permitem que possa surgir um jogador que, nesse terreno, pudesse restituir uma certa esperança nas transformações políticas. E se não aparecem jogadores, não podem aparecer estrelas da política ou um cartaz como aquele.» Ora, quer isto dizer que estamos sujeitos a um cinzentismo cada vez mais patente na comunicação que tenta por todos os meios a pesca de votos sem compromissos ideológicos para com os eleitores. [...]

7. A FALTA DE CARTAZES E O VAZIO IDEOLÓGICO | Sociedade Tricolor | : fractura.net! - Julho 23, 2009

[...] Mas atentemos nas palavras de José Luís Garcia, que apresenta ainda uma outra ideia acerca da utilização de cartazes de carácter icónico mais marcante – ou a falta desta – na Europa: «O sistema político da União Europeia, e de cada um dos Estados europeus, não tem tendência para forjar personagens com a força mítica e icónica de um Barack Obama. A primeira porque a sua personalidade mais importante resulta de uma escolha feita pelos directórios dos partidos maioritários nas costas dos eleitores. E do ponto de vista de cada um dos Estados, por razões sociais e políticas de fundo, as oligarquias políticas europeias não permitem que possa surgir um jogador que, nesse terreno, pudesse restituir uma certa esperança nas transformações políticas. E se não aparecem jogadores, não podem aparecer estrelas da política ou um cartaz como aquele.» Ora, quer isto dizer que estamos sujeitos a um cinzentismo cada vez mais patente na comunicação que tenta por todos os meios a pesca de votos sem compromissos ideológicos para com os eleitores. [...]


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