Quando o jornalismo intervém no desenrolar dos acontecimentos… (ACTUALIZAÇÃO)

Na senda da mais recente pista na insvestigação do desaparecimento de Madeleine McCann, há uma pergunta que fica para já no ar: até onde devem ir os jornalistas para investigar um caso? Devem os jornalistas, em nome da procura da verdade, empreender investigações paralelas, como a que parece ter decorrido esta manhã com a contratação de civis que percorreram com cães a zona assinalada na nova pista?

Sendo certo que todos os meios se justificariam para um desfecho desta história, até onde devem ir os jornalistas para conseguir uma notícia? É esse o objectivo, não é? Conseguir uma notícia… ou a notícia! Independentemente de um certo altruísmo ou de uma certa solidariedade com esta história, o que é que motiva este envolvimento dos jornalistas? Não tenho respostas nem sinto segurança para ajuizar sobre a correcção ou não dos procedimentos jornalísticos. Mas diria que podemos reflectir um bocadinho sobre estas práticas, porque os jornalistas já não fazem apenas o relato do que acontece… podem mesmo fazer acontecer.

ACTUALIZAÇÃO: Ver texto do Público “São os media, não a polícia, quem investiga nova pista no Algarve” (edição de 15 de Junho, p.14)

Ombudsman na Internet

O portal brasileiro UOL, que tem a PT como um dos accionistas, anunciou a criação do cargo de ombudsman. Segundo descreve o portal “o objectivo principal da nova função será receber, investigar e encaminhar as queixas e sugestões dos internautas em relação à qualidade, acuidade e isenção dos conteúdos e serviços, jornalísticos ou não.”

O UOL reúne o maior conteúdo online em língua portuguesa do mundo e destaca-se como o maior portal do Brasil, onde contabiliza quase nove milhões de visitantes únicos por mês.

O anúncio da criação do cargo de ombudsman reflecte o crescimento da exigência dos usuários por informações credíveis e de qualidade na Internet.

Leituras

  • Que potencialidades tem um blogue? – Responde Jay Rosen: “A Blog is a Little First Amendment Machine” e o impacte sobre o jornalismo é grande. “As it moves toward the Web, journalism will have to adjust to these conditions, but a professionalized press is having trouble with the shift because it still thinks of the people on the other end as an audience–an image very deeply ingrained in professional practice.”
  • Futuro dos jornais: dez coisas - Ryan Sholin, do blogue Ivisible Inkling apresenta “10 obvious things about the future of newspapers you need to get through your head“. Vale pelos dez pontos e vale pelos comentários.
  • Global Information Society Watch – Um relatório que faz o ponto de situação em 22 países, praticamente todos em vias de desenvolvimento (a Espanha é a excepção). Muitas semelhanças, mas também contrastes gritantes.
  • Imprensa Gratuita – O contributo para o aumento dos hábitos de leitura. Ameaça ou desafio à imprensa tradicional? João Vieira, do Instituto POlitécnico de Tomar, escreveu esta monografia que acaba de ser disponibilizada na BOCC.

‘Se fosse hoje…’

São muito curiosas as declarações recentes do fundador do El País, o jornalista (e gestor de media) espanhol Juan Luis Cebrián, a propósito da situação actual da imprensa escrita e dos desenvolvimentos no universo on-line. Um extracto:

Si yo ahora me tocara de nuevo fundar El País no lo haría en papel, haría algo en Internet y luego le buscaría una adaptación, de alguna manera, en papel.

Na sua conferência — que apetecia ler na íntegra… — Cebrián pronuncia-se ainda sobre os jornais gratuitos, sobre o futuro da imprensa e sobre a forte competição entre títulos existente em Espanha (dicas de Periodista Digital).

Portugal: 480 mil gratuitos por dia

No contexto da informação sobre o lançamento do diário gratuito ‘Meia Hora’, a newsletter de Junho “Free Daily Newspapers“, refere, sob o título “5th title for Portugal”:

” (…) Portugal is now the fourth market in Europe in terms of market share of free newspapers (45%). After Destak and Metro were introduced in 2004, the market expanded with business paper OJE in June 2006 and sports paper Diario Desportivo in January of this year. Destak, Metro and Diario Desportivo have different editions for Lisbon and Porto, Metro also distributes a national edition in some other areas. Total circulation in Portugal is almost 480,000. Papers are distributed in the subway but also handed out by hawkers dropped off at offices and hotels and distributed in the street to people waiting in their cars for the traffic lights. In a crowed market some saturation sets in, not all boxes are emptied at the end of the morning. In the subway more than half of the people are reading a newspaper, most of them the free ones”.

Futuro dos jornais – ecos da África do Sul

A conferência da WAN – World Association of Newspapers, que decorreu na Cidade do Cabo, África do Sul, nos últimos dias, tem tido alguma cobertura nomeadamente do Editorswebblog. Dos vários vídeos disponibilizados no YouTube, fica aqui uma selecção:

“Meia Hora” – um olhar

Nas ruas de Lisboa apareceu um novo diário dos dias úteis. Apesar de gratuito – ou por causa de o ser – merece referência, até porque ele próprio se quer implantar nas classes médias e médias altas, aquelas que andam menos pela carris, pelo metro. E “se Maomé não vai à montanha…” – pedimos a Marisa Torres Silva, autora do recém-lançado livro “A Voz dos Leitores na Imprensa”, que nos desse o seu olhar sobre este novo título que se lê em “Meia Hora”. A foto, essa, tomámo-la de empréstimo do Indústrias Culturais (que também dedica um post a este novo jornal).

Será que, face ao panorama da imprensa nacional, podemos ainda falar do binómio qualidade vs. popular?

Pelos vistos, a Cofina (em parceria com a MetroNews) pensa que sim, ao lançar hoje um novoPhoto Sharing and Video Hosting at Photobucketgratuito que apelida como sendo de referência, o “Meia Hora” (distribuição de 100 mil exemplares). Curiosamente, o grupo é também detentor do título gratuito líder do mercado, o “Destak” . Mas o que é que separa os dois jornais, o que é que faz com que o novo título surja sob a égide de “qualidade”?

A meu ver, muito pouco. Em termos de grafismo, as diferenças são óbvias, com o “Meia Hora” a apostar mais nas cores suaves, numa apresentação mais sóbria, a contrastar com os vermelhos do “Destak”. Em termos de conteúdo do jornal, talvez um maior destaque para a política nacional e internacional, que aparecem em primeiro lugar no alinhamento (a seguir à secção “Bom Dia”, com opinião, agenda, efemérides e citação do dia), contrastando com a prioridade que o “Destak” dá à informação de carácter local. Está bem escrito, bem organizado, com títulos informativos mas apelativos, tal como os outros gratuitos generalistas. A publicidade ocupa 12 das 32 páginas, mas não tem classificados (será por ser o primeiro?).

De resto, o “Meia Hora” cumpre as funções de um gratuito – leitura rápida, adequação aos estilos de vida, distribuição em locais estratégicos, aposta numa nova fórmula de atracção publicitária – mas… não mais do que isso. E também não se poderia pretender mais. Daí a estranheza, apesar do obsoleto da dicotomia (uma abordagem multi-dimensional adequa-se mais ao contexto actual), do termo “de referência”.

Aliás, o editorial deste primeiro número, que contém também o estatuto editorial do jornal, afirma claramente: “Publicaremos apenas notícias, sem análise. Quem quer análise, pode ir buscá-la a outros espaços se e quando tiver tempo para isso (…). Este é um jornal para quem quer ser informado e não tem tempo a perder com palavras desnecessárias.”

Uma nota final, que valoriza este número 1 do “Meia Hora” e que é pouco comum encontrar num gratuito – a presença de uma “cacha” ou de uma notícia divulgada em primeira mão. A fazer manchete, o jornal apresenta dados de um estudo do ISCTE, sobre a corrupção em Portugal, que só irão ser publicamente apresentados a 15 de Junho.

Marisa Torres da Silva

Construção da profissão de jornalista

Photo Sharing and Video Hosting at Photobucket
É hoje apresentado em Lisboa o livro de Fernando Correia e Carla Baptista “Jornalistas – do Ofício à Profissão: Mudanças no Jornalismo português 1956-1968″. O evento terá lugar na sede da Editorial Caminho, às 18.30.

O livro resultou de um trabalho de investigação que teve por base em entrevistas a 38 jornalistas que iniciaram a profissão antes de meados dos anos 60. Propõe-se como “um retrato vivido da forma como os jornalistas portugueses foram construindo um território profissional, orientado por valores éticos e humanos e definido pela posse de competências e saberes específicos”, num período que os autores consideram “decisivo para a construção da profissão”.

“Clube de Jornalistas” debate pluralismo

O pluralismo político-partidário na RTP e o plano da ERC para o monitorar é o tema da edição de hoje do programa Clube de Jornalistas na RTP2.  Participam Estrela Serrano, do Conselho Regulador da ERC, o jornalista Joaquim Vieira e o professor Rogério Santos. A partir das das 23 e 30, na RTP2, com moderação de João Alferes Gonçalves.

“Jornalismo de sarjeta”

“(…) Em tempos pouco propícios ao pudor e à seriedade, um jornalista sem escrúpulos é um indivíduo armado e perigoso e seria exigível que a Carteira Profissional fosse atribuída pelo menos com tantos cuidados como a licença de porte de arma. Como seria exigível que o jornalismo sério que ainda há estivesse na linha da frente contra o jornalismo de sarjeta, em vez de se deixar contaminar por ele(…)”.

Manuel António Pina, in Jornal de Notícias, 6 de Junho de 2007  (ler o texto completo: AQUI)

Comunicação, abundância informacional e aparência – conferência de José Luís Garcia

Realiza-se amanhã, às 15.30, na Universidade do Minho, em Braga, uma conferência do sociólogo José Luís Garcia, sobre o tema Comunicação, abundância informacional e aparência. A iniciativa, que tem lugar na Sala de Seminários do Instituto de Ciências Sociais, no Campus de Gualtar, é uma iniciativa de dois centros de investigação – o de Sociologia e o de Ciências da Comunicação e inscreve-se num Ciclo de Conferências e Seminários sobre “Tecnologia e configurações do humano“.

José Luís Garcia, sociólogo e investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, tem vindo a concentrar a sua atenção no estudo da ciência e tecnologia contemporâneas, bem como problemáticas conexas. Este mesmo tópico constitui a focalização do seu doutoramento em Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, cuja tese apresenta o título “Engenharia Genética dos Seres Humanos, Mercadorização e Ética. Uma Análise Sociopolítica da Biotecnologia.” Simultaneamente, desenvolve investigação em teoria social, após se ter dedicado aos mass media e jornalismo, às questões do ambiente, pobreza juvenil e migrações. É este o resumo da sua conferência:

“Ao longo do século XX, com o apoio da filosofia e da teoria social, formou-se uma corrente de pensamento sobre a civilização tecnológica criada nos últimos dois séculos e meio pelo Ocidente. Em larga medida, o trabalho de compreensão desta era – enquanto idade tecnológica – está realizado nos seus alicerces, embora seja um esforço que deva ser sempre reconsiderado devido à transformação tecnológica constante que não só constrange o ambiente externo da acção social, como influi no tempo, no espaço e em tudo o que denominamos mundo natural. Todavia, as meditações sobre a actual civilização tecnológica, embora disponíveis, não têm conseguido lograr uma ressonância significativa, estando confinadas por ora a uma certa condição exilada.

Contrariando esta tendência, explorarei a hipótese segundo a qual a comunicação ganha muito em ser estudada a partir da reflexão elaborada por teóricos que não descuidaram o escopo da tecnologia para pensar as sociedades contemporâneas. Nesta opção, apoio-me no facto absolutamente manifesto de que a comunicação, um conceito só aparentemente fácil de definir, é hoje atravessada em quase todas as suas expressões e facetas pela tecnociência. Seguindo este pressuposto, tentarei compreender a comunicação como «relação de fundo» da nossa experiência com o mundo (na acepção de background relation de Don Ihde [1990]) ou «disponibilidade ambiental», e como evento ontológico e metafísico. Mais especificamente, tentarei actualizar o raciocínio, que defendi detalhadamente num texto dedicado ao pioneirismo de Simmel na discussão filosófica e sociológica sobre a civilização científico-tecnológica (Garcia, 2003), de acordo com o qual a cultura moderna sofre o que chamei de um «desvio factício». Este argumento defende principalmente que a condição humana no mundo tecnológico moderno se encontra crescentemente sob o sentimento da perda da autonomia individual, da acção voluntária e da experiência com o próximo enquanto criadoras de possibilidades normativas, de processos sociais e de instituições. Todavia, apresso-me a acrescentar que vejo dificuldades insuperáveis nas concepções que entendem a ordem social como uma ordem meramente externa e coerciva ou, ao invés, como uma realização voluntarista. E, precisamente porque a simbolização é inerente à acção social, o meu principal propósito é revelar algumas das lógicas centrais que presidem à perda da autonomia da comunicação em relação à informação processada pela tecnologia e valorizada pelo mercado. Interpreto este processo como uma fase exacerbada da tragédia da cultura moderna na qual a actual tecnoeconomia da informação se apresenta fulgurantemente como fim em si mesma, colocando em desordem os quadros cognitivos, culturais e espirituais da acção social”.

Jornalista ou accionista? – Actualização

O director do Expresso, Henrique Monteiro, comentou o texto que aqui inseri há dias, a propósito da cobertura da Assembleia Geral do BCP. Li, no sábado, o que o jornal entendeu esclarecer sobre a matéria. Li também o relato do jornalista Pedro Lima, que teve acesso à dita assembleia na qualidade de accionista. Peço desculpa, mas continuo a ter muitas dúvidas sobre o procedimento do Expresso (não em termos legais ou formais, mas em termos deontológicos) nesta matéria. São cinco, parece-me, os argumentos em debate:

1) O jornalista não poderia ser acusado de deslealdade para com os outros accionistas, pois o BCP foi previamente informado – e, portanto, toda a gente na sala sabia. A isto respondo que um comportamento criticável não fica necessariamente ‘desculpado’ pelo simples facto de ser anunciado previamente. Respondo também que os próprios accionistas do BCP (ou uma parte deles) parecem não ter concordado com tal interpretação, como revela o relato de Pedro Lima, explicando que foi insistentemente instado a deixar de funcionar como jornalista numa reunião para a qual tinha entrado como accionista. Até fala de receio pela sua integridade física… Pelos vistos, foram os próprios accionistas que se sentiram lesados.

Há, entretanto, aqui um pormenor curioso – e que mostra como o Expresso também não revelou TUDO o que ia fazer. Leia-se o que diz Pedro Lima a propósito de uma altura em que deixou de mandar informações para o exterior:

“Defini com o jornal que continuaria na AG mas sem enviar mais nada. O que poucos sabiam era que tínhamos outro jornalista na AG. E, como tal, poderia continuar a assistir tranquilamente, enquanto a informação ia saindo. O que até me dava um certo gozo”.

Afinal as coisas não foram assim tão transparentes por parte do jornal, pois não?…

2) Não terá havido disfarce ou ocultação de identidade por parte do jornalista. Aqui, não vale a pena entrarmos em jogos de palavras ou em desculpas formais. Se o repórter do Expresso tivesse apresentado a sua Carteira Profissional de Jornalista para entrar na sala, seria impedido (como todos os outros foram). Mas como apresentou um comprovativo da sua situação de accionista do BCP, entrou na sala. Todos sabiam que ele era jornalista, mas todos sabiam que ele entrava ali como accionista. E se nós somos sempre tão zelosos a criticar os políticos que confundem ostensivamente os seus papéis – falam em sede de Governo como líderes partidários, falam em sede de partido como homens do Governo… – também não devemos aceitar que um jornalista ‘vista’ ou ‘dispa’ esse seu fato conforme a ocasião e a circunstância.

3) Não há situação de desigualdade para com outros jornalistas, pois todos podiam ter feito o mesmo. Discordo. Só ‘podia’ ter feito o mesmo quem comprasse acções do BCP - algo que custa dinheiro – ou quem conseguisse uma procuração - algo que não se arranja do pé para a mão. Mais: só ‘podia’ ter feito o mesmo quem concordasse com esse tipo de procedimentos e não visse aí um atropelo às regras deontológicas da profissão. Se eu me sinto vinculado a certos princípios, não ‘posso’ desrespeitá-los - porque não quero, porque acho que não devo. 

4) A opção do Expresso justificar-se-ia porque se estava perante um acontecimento de relevante interesse público. Permito-me duvidar também aqui. Não sei se uma assembleia de accionistas de um banco privado, destinada a discutir sobretudo umas polémicas alterações de estatutos e de organização do poder interno, é de um interesse público tão relevante, tão relevante, que justifique a abertura de uma excepção ao que está consignado no Código Deontológico dos jornalistas quanto à sua identificação. Que é de interesse público, aceito; que seja assim tão relevante, duvido.

5) Aquela assembleia geral não era uma reunião reservada e, tal como sucede noutros países, devia ser aberta à Comunicação Social. Que uma reunião deste tipo ‘devia’ ser aberta à Comunicação Social, não tenho dúvida nenhuma; mais, até entendo que os jornalistas devem lutar por todos os meios (legais e legítimos) ao seu alcance para  tentar alterar este estado de coisas. Que aquela reunião concreta não era uma reunião reservada, discordo. Os accionistas de uma empresa privada entenderam reunir-se  e entenderam vedar o acesso aos trabalhos à Comunicação Social: é, ou não, um direito que lhes assiste, mesmo que tenhamos uma opinião diversa e procuremos convencê-los disso? Parece-me que sim. Se, por discordarmos da sua opção, acabamos por adoptar meios ilegítimos de a contestar, arriscamo-nos a perder a razão, e ‘vai fora a criança com a água do banho’. Também aqui – e, repito, atendendo ao relativo interesse público do que está em causa -, parece-me que os fins não justificam os meios.

(Em tempo: esta questão também está a ser debatida no blogue do jornalista João Paulo Meneses, e com um elemento adicional que merece ser considerado.)

Representação da religião nos media

As figuras religiosas de natureza conservadora são citadas com uma frequência duas a três vezes superior à das figuras religiosas de pendor progressista ou centrista. A conclusão consta de um estudo divulgado na semana passada pela organização Media Matters, intitulado Left Behind – The Skewed Representation of Religion in Major News Media e relativo aos Estados Unidos da América.

Uma síntese:

“As in many areas, the decisions journalists make when deciding which voices to include in their stories have serious consequences. What is the picture of religious opinion? Who is a religious leader? Whose views represent important groups of believers? Every time a journalist writes a story, he or she answers these questions by deciding whom to quote and how to characterize their views.

Religion is often depicted in the news media as a politically divisive force, with two sides roughly paralleling the broader political divide: On one side are cultural conservatives who ground their political values in religious beliefs; and on the other side are secular liberals, who have opted out of debates that center on religion-based values. The truth, however is far different: close to 90 percent of Americans today self-identify as religious, while only 22 percent belong to traditionalist sects.[i] Yet in the cultural war depicted by news media as existing across religious lines, centrist and progressive voices are marginalized or absent altogether.”

Nos 120 anos do Jornal de Notícias

Cento e vinte anos são 120 anos, perdoe-se a ‘lapalissada’. É a redonda idade que o Jornal de Notícias se prepara para celebrar, daqui a um ano. É um diário curioso, este. Que passa despercebido, como passsa despercebida muita coisa que não existe ou não acontece nas esferas e círculos da Photo Sharing and Video Hosting at Photobucketcapital e arredores. Está longe de ser um jornal exemplar. Sei bem – são grandes os laços que a ele me ligam – que muitos, lá dentro, continuam a suspirar por mais e melhor. Mas, visto do lado do leitor atento que há muito procuro ser, é um jornal simples, decente, combativo, cioso da sua memória, atento à região em que está implantado. O que não é pouco.

Eu gostaria de o ver mais arrojado, porventura mais combativo, com um site mais arejado e funcional, mais preocupado com as gerações mais novas, mais virado para as novas formas de participação dos leitores, mas sem perder esse lado popular (que não descambe para o popularucho), esse esforço de envolver no acompanhamento da actualidade uma população que pouco mais tem para se informar do que a televisão e … os jornais gratuitos.

CORRECÇÃO (3/6) – Por má interpretação minha, dei ao JN mais um ano do que aqueles que tem. Corrigi, por conseguinte, o início do post. Tudo o resto se mantém – agora como desejo para … 120º aniversário.

A tragédia e o jornalismo

Eduardo Cintra Torres (ECT) escreve hoje no Público, sob o título “A tragédia é sempre excessiva”, uma dos mais interessantes e fecundas análises da cobertura televisiva do caso do desaparecimento de Madeleine, na Praia da Luz. Sugiro a sua leitura.

O catalão Llorenç Gomis costumava dizer que o jornalismo é relevante na medida não só em que reflecte a vida social, mas também na medida em que suscita a conversação, a aprendizagem e a própria acção. O texto de ECT suscitou-me estas notas (certamente ligeiras).

O caso encerrava um conjunto de características susceptíveis de fazer dele uma tragédia. Mas – reconheçamos – sendo uma tragédia para os que mais directamente o sentem, não o é, em si mesmo, do ponto de vista do seu significado público. Muitos outros casos, porventura mais trágicos e dramáticos do que este, não foram tratados do mesmo modo. Pelo contrário, terão sido, na maioria das situações, esquecidos. Este tornou-se uma tragédia porque, puxando por alguns ingredientes do caso (e nomeadamente o capital simbólico dos pais), as televisões fizeram dele uma tragédia. Em Entre-os-Rios, houve objectivamente, uma tragédia. Aqui parece ter havido, sobretudo, e objectivamente também, uma tragédia … mediática.

Enquanto tragédia mediática, e uma vez assim enunciada e representada, concordo que, como escreve ECT, não pode haver “meias tragédias” – ou se joga o jogo ou não se joga. E as televisões, umas mais do que outras, jogaram os seus trunfos.

Cintra Torres justifica, depois, o facto de as televisões terem passado horas a chover no molhado e a dizerem que não havia nada de novo para dizer, considerando, na esteira de Ésquilo, que isso é, precisamente, uma das características da tragédia, as quais teriam entretantando contaminado o jornalismo. E adianta que esta orientação do jornalismo televisivo, longe de ser uma deriva ou uma derrapagem, é, antes uma alternativa que só virá valorizar o jornalismo da imprensa. “O paradigna da informação televisiva generalista vai-se afastando irremediavelmente do jornalismo escrito. Querer que ela seja ainda como o jornalismo da imprensa é uma batalha perdida” – escreve o autor.

Resta saber se esse caminho que, segundo Eduardo Cintra Torres, estaria a ser trilhado pelas redacções das televisões generalistas ainda será jornalismo (e que jornalismo será).