RTP: 50 anos!

A TV pública: o + e o -

(-) Nasceu na Feira Popular de Lisboa, mas o poder político cedo tomou conta dela. “A televisão é um instrumento de acção, benéfico ou maléfico, consoante o critério que presidir à sua utilização. O governo espera que os dirigentes do novo serviço público saibam fazer desse instrumento um meio de elevação moral e cultural do povo português”. Foram estas as palavras que Marcello Caetano dirigiu à RTP aquando da assinatura do primeiro contrato de concessão de serviço público.

(+) Atravessou o Estado Novo sem grande autonomia no campo da informação, mas acumulou, mesmo nesse período, emissões memoráveis: a visita da rainha Isabel II a Portugal em 1957, a primeira transmissão de um jogo de futebol em 1958, a transmissão dos jogos da equipa portuguesa no Campeonato Mundial de 1966 (ainda hoje lembramos os Magriços…), as visitas papais, as sucessivas edições do Festival da Canção…

(+) Recordo com muita saudade muitos profissionais que passaram pela RTP : Fernando Balsinha, Adriano Cerqueira, Fernando Pessa, Henrique Mendes, Artur Ramos, Rui Romano, Alice Cruz, Fialho Gouveia…

(+) Foi testemunha ímpar da História: do 25 de Abril, da adesão de Portugal à CEE, dos massacres em Timor Leste, da “despedida” portuguesa de Macau, da guerra no Golfo, dos vários ataques terroristas…

(-) Nem sempre foi/é a TV “de todos os portugueses”: faltou-lhe/falta-lhe rasgo na programação dos canais internacionais, era/é preciso tornar o país (fora de Lisboa) mais visível.

(-) Em tempo de TV privada, a RTP1 foi o primeiro canal a fazer contra-programação. Perdeu as audiências para a SIC, quando em 1995 ganhou o exclusivo da transmissão do casamento de D. Duarte e D. Isabel Herédia.

(-) Ao longo dos anos 90, a RTP clonou muitos formatos dos canais privados. Nesse tempo, era preciso ter tido mais audácia, criatividade e qualidade.

(+) Mesmo não sendo líder de audiências, a RTP conseguiu somar trunfos ao nível da informação semanal, “obrigando” frequentemente os canais privados a mudar as suas opções editoriais: na segunda metade dos anos 90, o canal generalista público ousou mexer na composição dos “plateaux” informativos, tornando-os menos monocromáticos (políticos).

(+) Quando as “novelas da vida real” se revelavam fórmulas eficazes de atracção de audiência, a RTP resistiu a esse género de programação e, aos poucos, foi criando uma programação alternativa aos canais privados.

(+/-) Actualmente a RTP1 é o canal com mais programas de informação em horário nocturno, mas os políticos ainda continuam a ser os “donos dos plateaux”.

(-) Se quisermos somar o número de conselhos administração e de directores de programas e de informação que a RTP somou nestes 50 anos ficaremos, decerto, assustados com a dança de cadeiras.

(-) Em dia de aniversário, a RTP fez a festa em Lisboa e não prestou muita atenção ao Centro de Produção do Porto, mesmo sabendo que o “Jornal da Tarde” (feito a partir do Porto) é líder de audiência e que a “Praça da Alegria” e “Portugal no Coração” têm a sua emissão a norte.

(+/-) Que grande Centro de Produção se inaugurou hoje na capital! Na minha opinião, carregou-se demasiado na festa oficial, mas aquilo que me preocupa mais é o desequilíbrio de meios entre Lisboa e Porto.

(+) Assisti hoje à emissão da RTP através da Internet. Gostaria de voltar a fazer o mesmo amanhã e depois e depois… E já agora, também seria adequado a RTP prestar mais atenção ao “on line”.

A RTP faz hoje 50 anos. A televisão está hoje em festa. Não é bonita a opção da TVI de sobrepor à Gala da TV pública a “Gala das 7 Maravilhas”. É um gesto mesquinho.

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6 pensamentos em “RTP: 50 anos!

  1. Concordo na generalidade e, em particular, no que respeita à referência à atitude infeliz da TVI.

    Hoje não era dia de disputa de audiências ‘a todo o preço’!

  2. A festa foi bonita, pá!
    Foi mesmo.
    E já não me lembrava de ter passado uma noite inteira (do Telejornal em diante) em frente à televisão e em frente a um só canal.

    Ainda assim ficaram-me duas anotações:

    1. A postura de Luis Marinho destoou claramente do ambiente de celebração; mais do que a RTP celebrava-se meio século de TV em Portugal e Luis Marinho não percebeu (ou não quis perceber) isso. Foi o único – ainda bem.
    Fez uma converseta sobre a ‘verdade’ e com frase do género: ‘por muito que isso doa a muita gente’. É coisa de galas de concorrência, de galas de quem não está seguro. Isso da ‘verdade’ e do trabalho rigoroso – alguém devia dizê-lo ao Sr. Marinho – não se conquista elevando a voz. É de outra maneira, é de outra maneira…

    2. A narrativa construída para o espectáculo, a narrativa em torno da história da RTP, merecia ser estudada com detalhe. Lá estava o fado, o futebol, o teatro de revista. Antes das imagens da Revolução apenas isso, a Maria de Lurdes Modesto, as misses e os festivais; depois da Revolução, a Vila Faia e produções mais recentes.
    Há sempre que fazer opções, mas as que se fizeram valem observação atenta; ficaram de fora figuras (para o bem e para o mal) que não podemos nunca dissociar da história da RTP: Soares Louro, José Eduardo Moniz (apenas se recolheu um testemunho), Herman José (também só um testemunho), Barata Feyo, Diana Andringa, Miguel Sousa Tavares, Mário Crespo…e estes são aqueles de que me lembro agora, mas muitos mais haverá.
    É como se se estivesse a dizer que a RTP é coisa do Agora, é construção (com novos edifícios e novos métodos de gestão) do Presente (que se mostra perfeito, ou quase perfeito); do Passado só vale a pena guardar fragmentos higienizados de imaginário emocional. Chega. É muito menos complicado.
    Lembro-me, a este propósito, da irritação de um colega de trabalho quando alguém lhe diz “Os factos não se discutem!”. “Pois os factos – precisamente eles – é que devem discutir-se!”, responde.

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  4. De facto a tv não dá visibilidade do país, a rtp dá alguma porque tem mais essa obrigação legal e moral, mas o cenário televisivo alargado mais confinou o país a lisboa e arredores. Um contransenso havendo mais facilidade de deslocação e condições técnicas. Um recuo à imagem do atraso do país real ou rural. Um reforço da litoralidade que até esquece as regiões autónomas salvo quando há bronca política.
    Quanto à cerimónia da rtp, foi isso, cerimónia, desfile de caras, obliteração de nomes entretanto saídos da estação. Há 50 anos seria assim. Um atraso de vida.

  5. Digam bem ou digam mal, eu confesso é que, agora com 30 anos, algumas das coisas de que falaram na festa da comemoração dos 50 anos da RTP são mesmo parte da minha infância. E na verdade, até me emocionei (fiquei com uma lágrima no canto do olho…).

  6. Boas! Por acaso alguém gravou um programa que passou na madrugada do dia 7, apresentado pelo Eládio Clímaco, que contava com actuações do João Villaret, Ary dos Santos, Rui Veloso, Amália Rodrigues, Sara Tavares, enfim, algo que me colaria ao ecrã se não tivesse passado àquelas horas.

    A minha esperança é encontrar alguém neste cibermundo que tenha gravado o programa. Será que há por aqui alguém?
    Obrigado!

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