Sobre o silêncio dos media Dezembro 28, 2009
Posted by Manuel Pinto in Jornalismo.3 comments
A pequena coluna que quinzenalmente publico no Página 1, da Renascença, é hoje dedicado àqueles assuntos de potencial interesse público – e são muitos – e àquelas pessoas e grupos – e também são numerosos – que raramente ou nunca se ouvem, vêem ou lêem nas notícias.
Nunca chegaremos a avaliar em toda a sua extensão a dimensão desse silêncio mediático e noticioso e o seu efeito sobre o que sabemos e o que fazemos, baseados no que nos dizem e nos oferecem. Mas é claro que dizer isto não pode ser outra coisa que não um apelo a olhar para esse continente – gosto de lhe chamar “noite social”. Apelo dirigido aos jornalistas, certamente, visto que lhes cabe um papel crucial nessa matéria; mas dirigido também a todos nós, que contactamos com esse lado nocturno, porventura somos mesmo habitantes desse continente, e nos calamos, agravando, com esse silêncio, o silêncio institucional e público.
Dos últimos dias, dois casos (nem sequer dos mais sintomáticos, longe disso) que não passaram pelas notícias e que, a meu ver deveriam ter passado: a morte de Rui Polónio Sampaio, advogado do Porto que foi, ao longo de décadas, antes e depois do 25 de Abril, uma figura cívica de incontornável dimensão; e também a morte de Edward Schillebeckx, um dos maiores teólogos do século XX, marcante durante e após o Concílio, incomodado pelo Vaticano, defensor de uma visão do papel da Igreja que, em muitos aspectos, colide com a orientação hoje reinante. Ninguém deu conta; ninguém achou importante. Meros critérios editoriais? Generalizados?
Revistas on-line Dezembro 25, 2009
Posted by Manuel Pinto in Academia, Comunicação, Publicações.1 comment so far
- Já foi publicado o número 6 da revista Estudos em Comunicação (trata uma grande variedade de assuntos);
- Saiu o número 12 de Ícono 14, dedicado ao tema “Nativos digitais“.
“Clube de Jornalistas” na RTP chegou ao fim Dezembro 21, 2009
Posted by Manuel Pinto in Jornalismo, Televisão.4 comments
Por uma série de afazeres prioritários, não me dei conta de que o programa “Clube de Jornalistas”, na RTP2, terminou. Acabo de ver a notícia no site do Clube. E, naturalmente, lamento a decisão e não fico tranquilo com o silêncio dos media sobre o assunto, em particular o silêncio da própria RTP. Não me dei conta de que o assunto tenha sido noticiado.
O programa surgiu no quadro do projecto do então ministro Morais Sarmento de abrir o segundo canal público à sociedade civil e, desde então, foram emitidos 197 programas, por onde, segundo dados do Clube, passaram mais de 500 convidados e foram divulgados outros tantos depoimentos.
O fim do Clube de Jornalistas na RTP é, afinal, mais uma manifestação de um quadro preocupante: os media -e a televisão em especial – têm dificuldade de se discutir em público. E mais ainda quando se trata do jornalismo. Por isso, e apesar de todas as críticas que se possam fazer ao programa que ia para o ar já perto da meia noite, ele constituía um espaço de reflexão importante e praticamente único.
A RTP, a quem cabem especiais responsabilidades nesta matéria, não pode limitar-se a retirar o “Clube de Jornalistas” da grelha de programação. A cidadania e a qualidade de vida democrática levam-nos a exigir que a perspectiva do exame crítico da acção dos media e do jornalismo prossigam, desejavelmente em programa com formato mais ambicioso e dinâmico e em horário mais razoável.
Entretanto, fica aqui o link para o vídeo da última edição.
Jornalismo e liberdade – Murdoch dixit Dezembro 8, 2009
Posted by Manuel Pinto in Imprensa, Internet, Jornalismo, Liberdade, Regulação.add a comment
O texto de opinião que o magnate global do sector dos media Rupert Murdoch assina hoje no The Wall Street Journal, intitulado “Jornalism and Freedom” merece ser lido e estudando com atenção.
Por formação, gosto de ler e de acompanhar ideias bem argumentadas mesmo (ou sobretudo) quando são diferentes das minhas. Há sempre algo (às vezes, muito) que se aprende adoptando esse tipo de abordagem.
Ao contrário do que a frase do artigo destacada dá a entender – “Government assistance is a greater threat to the press than any new technology” – as opiniões de Murdoch vão para lá do problema dos subsídios estatais aos media e retomam posições veementemente defendidas nas últimas semanas relativamente ao modo de enfrentar a crise dos media jornalísticos e, em certa medida, da crise do próprio jornalismo.
Duas notas breves, a propósito:
1. Aparentemente a razão primeira da crise dos meios jornalísticos estaria em que não dão às pessoas aquilo que elas querem. Sublinha o auto que visitou inúmeros jornais cheios de prémios nas paredes mas com a circulação a cair a pique e isto porque os respectivos editores se esqueceram dos clientes e passaram a escrever e publicar para si mesmos.
A bem dizer, este argumento não é novo. Mas quando esperávamos que o autor abrisse uma nesga de solução para este problema, ele avança com os gadgets através dos quais os cidadãos acedem cada vez mais às notícias, nomeadamente os portáteis. Ora isto, se bem leio, não tem que ver com as notícias que interessam ou não, mas com o modo como a elas se acede.
Ou talvez não. Visto que a tecnologia através da qual lemos as notícias também pode ser altamente condicionadora do tipo de notícias que lemos.
Ora o articulista passa, neste ponto, para aquilo que designa por “qualidade do jornalismo”. E que entende ele por tal conceito? Nada diz, a não ser que “no futuro, o bom jornalismo dependerá da capacidade das instituições jornalísticas de atrairem clientes, proporcionando-lhes notícias e informação pelas quais eles estejam dispostos a pagar”. Percebo que esse seja o ponto de vista e a preocupação de Murdoch. Mas confesso não ver muito bem onde fica, neste cenário, a preocupação com a qualidade.
2. O que o autor escreve sobre o papel regulador do Estado também se percebe bem. Em resumo, entende Murdoch que os apoios que os governos (ele alude, no caso, aos Estados Unidos da América) possam dar aos media jornalísticos se traduzirão em dependência do jornalismo face ao poder e, por conseguinte, numa limitação da liberdade de informação e, em última instância, da própria liberdade.
Em vez de ajudar, num tempo de crise excepcional e num momento de dificuldade extrema, um grande jornal a sobreviver, por exemplo, o Estado faria melhor em deixá-lo cair e, em contrapartida, limpar os escolhos que impedem o acréscimo de concentração dos media para aqueles que podem e querem crescer. Isto é que seria pautar a actuação por critérios do século XXI e não pelos do século passado, segundo o articulista. Contudo, bem vistas as coisas, a liberdade defendida por Murdoch é, afinal, a liberdade dos poderosos de se tornarem ainda mais fortes. À custa da crise, além do mais.
Para quem coloca um título tão grandiloquente e ambicioso ao seu artigo, esperava-se talvez um pouco mais de elevação e grandeza quanto aos horizontes da liberdade propugnada.
Ainda assim, o artigo merece ser lido e estudado.
Cimeira do clima – dia histórico para a Imprensa Dezembro 7, 2009
Posted by Manuel Pinto in Imprensa, Jornalismo, Sociedade.1 comment so far

O arranque da cimeira do clima, em Copenhaga, fica assinalado por uma iniciativa inédita e reveladora: 56 jornais de todo o mundo, incluindo o português Público, aceitaram o repto de The Guardian e publicam hoje na primeira página um texto comum, negociado entre eles, ao longo das últimas semanas.
O texto final, divulgado em mais de 20 línguas, alerta para a “terrível emergência” que afecta o planeta e foi subscrito pelos seguintes jornais de 44 países:
“Süddeutsche Zeitung” – Alemanha,”Gazeta Wyborcza” – Polónia,”Der Standard” – Áustria,”Delo” – Eslovénia,”Vecer” – Eslovénia,”Dagbladet Information” – Dinamarca,”Politiken” – Dinamarca,”Dagbladet” – Noruega,”The Guardian” – Reino Unido,”Le Monde” – França,”Liberation” – França,”La Reppublica” – Itália,”El Pais” – Espanha,”De Volkskrant” – Holanda,”Kathimerini” – Grécia,”Público” – Portugal,”Hurriyet” – Turquia,”Novaya Gazeta” – Rússia,”Irish Times” – Irlanda,”Le Temps” – Suíça, “Economic Observer” – China,”Southern Metropolitan” – China,”CommonWealth Magazine” – Taiwan,”Joongang Ilbo” – Coreia do Sul,”Tuoitre” – Vietname,”Brunei Times” – Brunei,”Jakarta Globe” – Indonésia,”Cambodia Daily” – Camboja,”The Hindu” – Índia,”The Daily Star” – Bangladesh,”The News” – Paquistão,”The Daily Times” – Paquistão,”Gulf News” – Dubai,”An Nahar” – Líbano,”Gulf Times” – Qatar,”Maariv” – Israel,”The Star” – Quénia,”Daily Monitor” – Uganda,”The New Vision” – Uganda,”Zimbabwe Independent” – Zimbabwe,”The New Times” – Ruanda,”The Citizen” – Tanzânia,”Al Shorouk” – Egipto,”Botswana Guardian” – Botswana,”Mail & Guardian” – África do Sul, “Business Day” – África do Sul, “Cape Argus” – África do Sul,”Toronto Star” – Canadá,”Miami Herald” – Estados Unidos,”El Nuevo Herald” – Estados Unidos, “Jamaica Observer” – Jamaica, “La Brujula Semanal” – Nicarágua,”El Universal” – México, “Zero Hora” – Brasil, “Diário Catarinense” – Brasil, “Diario Clarin” – Argentina.

O texto do editorial: AQUI
Tendência para a queda nos gratuitos Dezembro 1, 2009
Posted by Manuel Pinto in Investigação.2 comments
Newspaper Innovation, o imprescindível “observatório” do fenómeno da imprensa gratuita no mundo, que o Prof. Piet Bakker há quase uma década acompanha através do seu blog e de uma newsletter mensal, aponta para uma tendência de queda, especialmente sentida na Europa.

(Quadro de Piet Bakker. Clicar para ver versão ampliada)
De acordo com dados hoje divulgados, a queda do número de jornais era, nos primeiros nove meses de 2009, da ordem dos 10 por cento, depois de uma subida constante desde 1995. O declínio, no caso da Europa, teve início ainda em 2008.
Leituras para um destes dias Novembro 28, 2009
Posted by Manuel Pinto in Comunicação, Jornalismo, Política, Ética.1 comment so far
- Teorias do Jornalismo – é o tema do vol 6 (nº 2) da revista Estudos em Jornalismo e Mídia, da Universidade Federal de Santa Catarina (Brasil), coordenado por Rogério Christofoletti. As edições anteriores estão aqui.
- Acaba de ser publicado o livro “Communicative approaches to politics and ethics in Europe. The intellectual work of the 2009 ECREA European Media and Communication Doctoral Summer School” de Nico Carpentier, Pille Pruulmann-Vengerfeldt, Richard Kilborn, Tobias Olsson, Hannu Nieminen, Ebba Sundin e Kaarle Nordenstreng (eds.). Perto de 400 páginas em acesso livre.
- Um novo número (vol. 2, nº 1) do Global Media Journal (edição canadiana) sobre a temática: Ethics, New Media, and Social Networks.
“O país é Lisboa…” Novembro 27, 2009
Posted by Joaquim Fidalgo in Audiência, Jornalismo, Media.7 comments
Há quantos anos andamos (tantos de nós…) a tentar que isto não suceda!… Há quantos anos a tentar que os jornalistas de Lisboa não escrevam ou digam, em meios de comunicação NACIONAIS, que “logo à noite há um concerto no Coliseu” (qual Coliseu?… não há dois?…) ou que “está em obras a Avenida da Liberdade” (qual delas, se tantas há no país?…), ou que “o comércio esteve ontem aberto” quando foi apenas o de Lisboa que abriu! Mas não, isto não muda facilmente, são décadas e décadas de hábito de falar de Lisboa como quem fala do país, um hábito que está dentro das cabeças e se tornou quase inconsciente. Mas jornalista não deve, não pode ser inconsciente. Então os melhores outlets “DO PAÍS” são, por curiosa coincidência, todos na capital e arredores?… Vale a pena espreitar esta notícia do “i” — e continuar para baixo, para os comentários. Vá lá que começa mais gente a chamar a atenção para isto…
ACTUALIZAÇÃO: Decerto por causa dos protestos dos leitores, o “i” corrigiu o seu título, embora sem informar sobre o assunto. É um dos problemas muito falados na publicação on-line: muda-se o que se escreveu antes e é como se nunca tivesse existido a versão original… Mas existiu. A prova aqui fica, com a reprodução do ecrã que surgiu de manhã e a versão alterada (no título, não no texto) já à tarde:
Em quem confiam os jornalistas? Novembro 22, 2009
Posted by Manuel Pinto in Jornalismo.3 comments
Um vasto projecto de investigação que envolveu 1800 jornalistas de 356 redacções acaba de divulgar alguns dos resultados de um estudo que comparou as “culturas jornalísticas” em 18 países, com o fim de identificar as tendências dominantes por detrás das diferenças que existem nesse terreno.
Para já, foram disponibilizadas algumas tabelas comparativas que permitem verificar o posicionamento dos jornalistas de cada país relativamente a um certo conjunto de itens (bastante limitado, por ora). Neste registo, há uma pergunta que inquire sobre o grau de confiança, numa escala de 1 a 5 que merecem aos jornalistas algumas das principais instituições sociais. Ainda que se registem diferenças significativas de país para país, fica aqui a tabela global:
GRAU DE CONFIANÇA DOS JORNALISTAS EM DIFERENTES INSTITUIÇÕES
De acordo com os primeiros resultados do estudo, “o distanciamento, o não-envolvimento e a divulgação de informação política, bem como o papel de watchdog pertencem às funções do jornalismo que suscitam adesão global. Imparcialidade, fiabilidade e factualidade da informação, bem como a adesão a princípios éticos universais também são em geral apreciados. O intervencionismo, no entanto, é muito menos suportado pelos jornalistas. Vários aspectos da objectividade, bem como a importância de separar factos e opiniões parecem ser encarados de forma diferente nos vários países. Os jornalistas ocidentais são, em termos gerais, menos favoráveis a qualquer forma de promoção activa de valores particulares, ideias ou mudança social, e aderem mais aos princípios universais nas suas decisões éticas”.
Os países envolvidos são a Austrália, Áustria, Brasil, Bulgária, Chile, China, Egipto, Alemanha, Indonésia, Israel, México, Roménia, Rússia, Espanha, Suíça, Turquia, Uganda e Estados Unidos da América.
Ele há cada coincidência (III) Novembro 18, 2009
Posted by Luis António Santos in Cidadania, Espaço público, Imprensa, Jornalismo, Política, Regulação.5 comments
Palavras para quê?
A marcha do pensamento único (neste caso com um pendor bélico nacionalista muito peculiar que também importaria não deixar de discutir) continua, nos desportivos, sem embaraço nem contratempos.

Portugal: apenas um em cada seis usa redes sociais Novembro 18, 2009
Posted by Manuel Pinto in Internet, Participação.1 comment so far
São estudantes, maioritariamente da classe média e média-alta, têm entre 15 e 24 anos e usam sobretudo o hi5 – assim se poderia caracterizar o retrato-tipo dos utilizadores portugueses de redes sociais/comunidades virtuais, de acordo com dados do Bareme-Internet da Marktest.
Entre os residentes no Continente maiores de 14 anos, cifra-se em 1,36 milhões o número dos indivíduos que costumam aceder a comunidades virtuais/ redes sociais, o que representa 16.4% do universo (equivalente a quase um em cada seis).
O hi5 é o espaço mais frequentado, com 15,9%, seguido, a grande distância, pelo Facebook (2,6) e pelo MySpace (1,4).

Joaquim Fidalgo dirige o DCC Novembro 17, 2009
Posted by Manuel Pinto in Academia.3 comments
O Prof. Joaquim Fidalgo acaba de ser eleito pelos seus pares para o cargo de director do Departamento de Ciências da Comunicação (DCC) da Universidade do Minho, uma eleição já homologada pelo Reitor da UM.
Joaquim Fidalgo foi jornalista profissional, tendo-se iniciado na profissão em 1980, no “Jornal de Notícias”. Passou pelo “Expresso” e foi um dos fundadores do jornal “Público”, tendo feito parte da primeira Direcção Editorial do jornal, bem como da Direcção da empresa PÚBLICO – Comunicação Social, SA. Foi, também, provedor do leitor daquele diário.
O novo director do Departamento de Ciências da Comunicação está ligado à UM desde 1998, tendo realizado o seu doutoramento com uma tese sobre “O lugar da ética e da auto-regulação na identidade profissional dos jornalistas”.
Eventos Novembro 11, 2009
Posted by Manuel Pinto in Media.add a comment
As Telenovelas e os Estudos Televisivos – Amanhã, dia 12, pelas 18:30, Christine Geraghty dará uma conferência na Universidade Católica, em Lisboa (Faculdade de Ciências Humanas, sala 121), com o título Soap Operas and Television Studies. Christine Geraghty é professora de Estudos Fílmicos e Televisivos da Universidade de Glasgow.
Humor e jornalismo gráfico no Estado Novo – Conferência de Álvaro de Costa Matos, da Hemeroteca Municipal de Lisboa e do Centro de Investigação de Media e Jornalismo, incidindo no semanário humorístico Os Ridículos”. Será no dia 12, às 18 horas, na Hemeroteca.
Broadband Media. Changing Times, Changing Media - é o tema de uma conferência internacional que se realiza no próximo dia 23, a partir das 10 horas no ISCTE, no auditório Afonso de Barros, em Lisboa. Trata-se de um evento promovido pela revista académica do Observatório da Comunicação, a Observatório(OBS*), e terá a presença, entre outros, de Jonathan Taplin (USC), Roberto Suarez (Univ. Pompeu i Fabra), François Bar (USC), Eduardo Cintra Torres (Univ. Católica Portuguesa), Piet Bakker (Univ. Amsterdam), João Paulo Menezes (ISLA-Gaia) e David Domingo(Univ. Rovira e Vigilli).
Entre o bem público e a reserva da vida privada Novembro 8, 2009
Posted by Joaquim Fidalgo in Cidadania, Investigação, Jornalismo, Ética.8 comments
Ao ler as notícias do fim-de-semana sobre o facto de as escutas telefónicas a Armando Vara também terem ‘apanhado’ José Sócrates em conversas duvidosas, lembrei-me do outro caso das escutas – o do Verão. Nessa altura, um dos grandes motivos de polémica foi o facto de o “Diário de Notícias” ter divulgado publicamente um fax PRIVADO, trocado entre dois jornalistas do “Público”. Não faltaram jornalistas (e comentadores, como Pacheco Pereira…) a repudiar vivamente aquela publicação, quase se recusando a discutir o fundo da questão (a existência, ou não, de uma manobra de manipulação informativa lançada por Belém, com a voluntária ou involuntária cumplicidade do jornal então dirigido por José Manuel Fernandes) por, diziam, se basear numa inaceitável divulgação de correspondência privada.
Agora, não vi ninguém (nem jornalistas, nem Pacheco Pereira…) escandalizar-se com o facto de as últimas suspeitas envolvendo José Socrates se basearem no conhecimento e na divulgação de telefonemas PRIVADOS entre o primeiro-ministro e Armando Vara. Mais: não será verdade que todo o processo “Face Oculta”, que está a permitir desmontar uma aparente rede de corrupção de vasto alcance, se baseou grandemente em escutas telefónicas que apanharam conversas privadas entre os diversos arguidos? E as escutas telefónicas que já nos fartámos de ver publicadas em jornais, desde o “Apito Dourado” ao “Caso Casa Pia”, passando pela “Operação Furacão” ou pelo “Caso Portucale”, não incidiam todas elas em conversas privadas? E o fax que há dias vimos reproduzido em jornais, um fax trocado entre responsáveis do Freeport com referências a um suborno de dois milhões de euros, não era, ele também, correspondência privada? E o célebre DVD que a TVI mostrou em tempos, com acusações directas a Sócrates, não era ele, igualmente, resultado da uma filmagem clandestina de um encontro privado entre duas ou três pessoas?… Em resumo: haverá algum caso, recente ou antigo, de investigações sobre crimes de corrupção e de tráfico de influências que não se baseie, mais ou menos, em elementos (telefonemas, cartas, faxes, e-mails) que claramente se inscrevem no domínio das relações privadas entre pessoas?… E é por isso que os vamos desconsiderar pura e simplesmente, recusando-nos até a discuti-los, porque interferem com o direito fundamental das pessoas à privacidade?… E se isso acontece em todos os casos em que há suspeitas de crime, ou de engano, ou de atropelo a valores básicos do interesse público, por que devemos abrir excepção quando os intervenientes directos são jornalistas?…
Sei que cada caso é cada caso e que o caso das escutas do Verão é bastante complexo. Mas, independentemente disso, há um ponto que me parece de sublinhar – e é o único que gostaria de reter aqui, a partir dos exemplos citados: o direito à reserva da vida privada (aí incluindo trocas de correspondência, de e-mails ou de telefonemas) é um direito fundamental de todas as pessoas, mas não é um direito absoluto. Se há fundadas suspeitas de um crime ou de uma infracção grave a princípios legais, éticos ou deontológicos, com consequências que extravasam esse foro privado, e se se conclui que a única forma de fazer prova de tais ilícitos é escutar conversas privadas ou vasculhar correspondência privada, pode ser necessário, como última instância, interferir com esse “bem”, em nome de um “bem maior” – o de um interesse público relevante e indesmentível. É esse “bem maior” que leva um juiz a autorizar escutas privadas; é esse “bem maior” que tem levado muitos jornalistas de investigação a divulgarem publicamente factos recolhidos na esfera da vida privada de pessoas (mesmo quando estão abrangidos pelo segredo de justiça). Ora, quando os jornalistas denunciam estas coisas, toda a gente aplaude (e muito bem, que é essa uma das funções mais nobres da Comunicação Social em democracia), pouco se preocupando com a privacidade dos implicados (porque está em causa um “bem maior”, insisto). Mas quando os jornalistas são, eles próprios, vítimas de tais denúncias, caem logo o Carmo e a Trindade porque alguém se atreveu a divulgar mails privados… São dois pesos e duas medidas que retiram credibilidade aos profissionais dos ‘media’.


